A Susana Farinha começou a fazer brincos num dos lugares onde menos se espera que nasça uma marca bonita: num hospital.

Sentada ao lado de Fernando, o homem que amava, enquanto ele enfrentava a doença que acabaria por lhe tirar a vida aos 30 anos, Susana ocupava as mãos para tentar salvar a cabeça. Fazia-lhe companhia, fazia brincos, experimentava arames, pendentes, pequenas peças. As enfermeiras vinham espreitar as novidades. Algumas compravam.

Na altura, não havia estratégia de marca, calendário de lançamentos, loja online ou ateliê. Havia amor. Havia medo. Havia espera. Havia uma mulher muito nova a tentar não se afundar enquanto a vida lhe pedia uma força que ninguém devia ter de aprender tão cedo.

Mas, mesmo ali, a cor continuava a aparecer. Talvez seja por isso que, hoje, os brincos Susana Farinha não pareçam apenas acessórios. Parecem pequenas declarações de presença. Daquelas que uma mulher põe ao espelho e, por instantes, se lembra de si.

Mas esta história não começa no hospital.

Começa muito antes, numa rapariga que cresceu a olhar para tecidos, linhas, botões e agulhas como quem via possibilidades onde os outros viam apenas restos.

Susana Farinha

A primeira matéria-prima foi a curiosidade

A Susana sempre teve uma ligação quase instintiva à criação. A mãe conta que, ainda antes de andar na escola, ia com ela ao cabeleireiro e ficava sentada no sofá a fazer crochet. Havia qualquer coisa nas agulhas, nas linhas e nos gestos repetidos que a chamava.

Fazia cachecóis com duas agulhas, bordava lenços com iniciais, fazia tapetes de Arraiolos, ponto cruz, quadros e almofadas. Cresceu rodeada dessa linguagem manual, onde uma linha podia virar desenho, um tecido podia virar roupa e um desperdício podia virar uma peça nova.

A mãe fazia-lhe a roupa. Por isso, a Susana andava sempre diferente das outras raparigas. Os vestidos tinham pormenores, pequenos detalhes, qualquer coisa que fugia ao óbvio. E ela, em vez de querer esconder essa diferença, parecia alimentá-la.

A menina que já via possibilidades em tudo

Aproveitava os restos de tecido para fazer roupa para as bonecas. Mais tarde, já no secundário, começou a fazer peças para si. Comprava revistas brasileiras de moldes, porque estavam sempre uma estação à frente, e seguia as novelas como quem estudava tendências.

Aos 17 anos, fez um top assimétrico para ela própria. Sentia-se poderosa e talvez isso diga muito sobre a Susana. Não era só a peça, era a sensação, era olhar ao espelho e reconhecer ali uma versão mais livre, mais ousada, mais sua.

Ela nunca se preocupou muito com o que as amigas podiam achar. Na verdade, as amigas aceitaram-na como a irreverente do grupo. Ainda não havia marca, mas já havia uma assinatura. A assinatura de uma mulher que sempre olhou para a roupa e para os acessórios como expressão, não como decoração.

Na faculdade, enquanto estudava jornalismo, o encantamento continuou. Quando via o programa Chuva de Estrelas, apresentado por Catarina Furtado, não ficava apenas a pensar na televisão, na apresentação ou no palco. Ficava presa às roupas. Observava-as, namorava-as, imaginava como podia fazer algo parecido. Comprava tecidos ao início da semana para estrear as peças nas saídas à noite.

Há pessoas que se vestem para se cobrir e a Susana sempre se vestiu para dizer qualquer coisa.

Os primeiros brincos nasceram antes da marca

As primeiras peças de bijuteria com forma e design próprio apareceram ainda no secundário. A Susana ia à Papelaria Fernandes comprar FIMO, a massa de modelar que vai ao forno e que hoje é mais conhecida como polymer clay. Fazia tabuleiros e tabuleiros de pequenas peças, que depois encaixava com cordão ou fio de nylon.

Mas a ideia, curiosamente, nem era apenas a bijuteria. Era o efeito final, o look... a imagem inteira.

Talvez seja isso que ainda hoje se sente nas peças da Susana Farinha. Elas não vivem isoladas, entram num rosto, numa roupa, numa energia. Transformam, levantam e dão intenção.

Entre os 20 e os 25 anos, começaram a aparecer as primeiras peças para outras pessoas. Primeiro, as amigas. Colares e pulseiras com missangas, contas, búzios e conchas. Algumas ainda guardam essas primeiras peças.

Na altura, certos materiais que a Susana imaginava não existiam facilmente à venda. Então fazia aquilo que os criativos fazem desde sempre: procurava onde ninguém procurava, desmontava o que já existia e dava-lhe uma nova vida.

Encontrava peças decorativas em lojas de artesanato, jarras, tabuleiros e taças feitas com conchas e búzios unidos por fio de nylon e desmontava tudo para criar as suas bijuterias.

Colares com contas azul turquesa e rosa, búzios pendurados, conchas. Verão ao pescoço, liberdade no pulso... era um sucesso junto das amigas.

Antes da marca, já havia uma linguagem

Mas transformar talento em negócio é outra coisa. Entre fazer peças e assumir uma marca há, muitas vezes, um abismo invisível. Há medo, insegurança, a vida, dinheiro, o receio de falhar... aquela voz que pergunta: “E se não for suficiente?”

No caso de Susana, esse intervalo durou mais de 20 anos! Durante muito tempo, ela criou, mas ainda não se escolhia por inteiro.

O dia em que Susana Farinha precisou de criar para si

Antes de lançar a própria marca com consistência, a Susana trabalhou durante nove anos para uma empresa, criando uma coleção em cortiça. Ela desenhava fios, colares e pulseiras. Os fios de cortiça eram da empresa, mas todos os outros materiais, fechos, contas, argolas e detalhes, eram da sua responsabilidade e o design também.

Durante algum tempo, foi perfeito. A empresa tinha uma carteira de clientes espalhada pelo mundo e as peças vendiam bem. A Susana criava e as pessoas gostavam. Depois, como tantas vezes acontece nas histórias reais, tudo correu mal.

As faturas começaram a ficar por pagar. A dívida acumulou-se. Os designs da Susana acabaram copiados por mão de obra mais barata. A relação comercial terminou em 2016, o processo seguiu para o tribunal em 2017 e, em 2018, chegou finalmente a um acordo.

Esse acordo foi, nas palavras dela, uma tábua de salvação... mas antes disso houve queda.

Houve uma situação financeira difícil. Houve a necessidade de vender a casa. Houve o fim de uma vida com algum luxo. Houve a dor de fazer downgrade, de deixar de viajar, de deixar de comprar as coisas que antes faziam parte de uma vida mais confortável e, pelo meio, houve também um divórcio.

Mas houve uma decisão.

Da necessidade nasceu uma marca

Na passagem de ano de 2017 para 2018, a Susana fez uma resolução: criar uma marca de bijuteria.

Não foi um sonho cor-de-rosa embrulhado num plano perfeito. Foi necessidade, sobrevivência e uma forma de deixar de ter pena de si própria.

E há uma força muito grande nisto. Porque, às vezes, a coragem não chega bonita, luminosa e preparada para fotografia. Às vezes chega cansada, aflita, com contas por pagar, uma vida para refazer e uma certeza pequena, mas suficiente: eu tenho de fazer alguma coisa por mim.

Durante anos, a Susana criou para os outros, até ao dia em que percebeu que, se queria sobreviver, tinha de voltar a criar para si.

A cor como resposta

Quem olha para as peças da Susana Farinha percebe rapidamente que a cor não é um detalhe, é linguagem.

Para a Susana, a cor tem uma relação emocional muito forte. A certa altura, começou a associar o preto e as cores muito escuras a um estado triste. A cor, pelo contrário, dava-lhe a sensação oposta: energia, vibração, alegria e vida. O cérebro dela, diz, sente-se feliz quando entra numa loja cheia de cor e essa sensação passou para o trabalho.

Por isso, os brincos da Susana Farinha não existem para desaparecer. Existem para aparecer, para elevar uma camisa branca, para transformar um vestido simples, para dar graça a um dia normal, para fazer uma mulher sorrir ao espelho antes de sair de casa.

A Susana quer que uma mulher sinta borboletas no estômago quando usa os seus brincos, que se veja e goste do que está a ver, que sinta aquele fiozinho de adrenalina, de poder.

E quem já usou os seus brincos sabe exatamente o que isto quer dizer.

O poder de uns brincos statement

Há acessórios que não mudam só a roupa, mudam a postura, endireitam as costas, levantam o queixo e fazem-nos entrar numa sala como se nos tivéssemos acabado de lembrar de quem somos.

A cor, no trabalho da Susana Farinha, não é tendência, é resposta.

A história de Fernando e os brincos que nasceram no hospital

Há um nome que atravessa esta história com uma delicadeza imensa: Fernando.

A Susana conheceu-o em 1999. Foi tudo muito avassalador. Pouco depois, descobriram a doença através do doutor Lobo Antunes. Eram jovens, não havia maturidade possível para tudo o que se seguiu.

Em 2000, foram para Londres, onde o Fernando fez tratamentos rigorosos. Durante quatro meses, a Susana esteve sempre com ele. A radioterapia deixava-o muito cansado e, muitas vezes, enquanto ele descansava, ela saía sozinha.

As lojas que mais a encantavam eram as floristas. Sempre lindas, numa esquina qualquer, cheias de cor. Lembra-se de comprar tulipas. Foi também aí que descobriu, numa internet ainda rudimentar, moradas de retrosarias onde passava horas a abrir gavetas cheias de botões e brilhos. Era a sua bolha.

Londres era demasiado cara para a sua carteira da altura. A Susana estava sem trabalhar desde 1999 e vivia com a ajuda dos pais, que a apoiaram nas decisões que tomou por amor. Mas mesmo com pouco dinheiro, encontrava forma de criar.

Um dia, viu umas jeans numa loja de luxo. Mais tarde, numa retrosaria, encontrou cristais parecidos. Comprou-os, colou-os nuns Levi’s 501 e transformou-os. Parece um detalhe pequeno, mas não é.

Era a necessidade de criar para se manter ocupada. Era uma forma de respirar. Era o início de uma lógica que atravessaria a sua vida: quando tudo fica demasiado pesado, as mãos procuram beleza.

Regressaram a Lisboa. A doença entrou em remissão. Durante esse tempo, construíram uma casa. A Susana desenhou móveis, lareira, casa de banho... a criatividade estava ao rubro. Voltou a trabalhar, durante dois anos, numa editora de livros profissionais. Mas estava atrás de uma secretária e estava triste porque não estava a criar.

Casaram-se em 2003. A doença deu tréguas, mas quando voltou, trouxe toda a sua força. Vieram temporadas no IPO. A Susana despediu-se da editora e voltou a ficar a tempo inteiro como cuidadora.

Lia romances cor-de-rosa. Talvez porque, pelo menos ali, as histórias acabavam bem. Os amigos estavam de férias, mandavam mensagens pelo Hi5, contavam festas, bebidas, encontros... a vida acontecia lá fora. Dentro, havia amor, doença, espera, cansaço e uma coragem silenciosa.

O Fernando, diz a Susana, não foi um coitadinho. Foi um doente que não se lamentou da sua sorte e aguentou firme até ao último suspiro.

Um dia, ela acordou e disse-lhe que precisava de ir a Lisboa comprar ferramentas. Moravam em Sesimbra. O Fernando já tinha mobilidade reduzida e só andava apoiado nela, mas foram. Foram comprar alicates de joalharia. Depois foram ao Colombo e a Susana ficou horas em frente à loja Pedra Dura, a tentar perceber como eram feitas as peças. O Fernando ficou sentado num banco comprido, enquanto ela observava tudo com atenção.

Voltaram para casa com ferramentas e com uma memória visual cheia de arames, pendentes e possibilidades e foi assim que começaram os brincos Susana Farinha.

Quando o Fernando ficava hospitalizado, a Susana passava horas a fazer-lhe companhia e a fazer brincos. As enfermeiras vinham espreitar as novidades e algumas compravam.

Há marcas que nascem em gabinetes de marketing; esta nasceu num hospital.

Nasceu da espera, do amor, do medo, da tentativa de manter as mãos ocupadas para que a cabeça não se afundasse.

Nasceu de uma mulher sentada ao lado de quem amava, a criar beleza enquanto a vida lhe pedia uma força que ninguém devia ter de aprender tão cedo.

O Fernando morreu em 2005, tinha 30 anos... é impossível conhecer esta parte da história e voltar a olhar para estes brincos apenas como acessórios.

Quando criar se tornou uma forma de sobreviver

A criação foi, para a Susana, salvação. Foi terapia, foi a bolha onde conseguia desligar do resto. Os momentos de silêncio não eram de introspeção, eram de criação.

Talvez seja por isso que as peças tenham tanta vida, porque nasceram num lugar onde a vida era urgente.

O que uma mulher faz com aquilo que lhe sobra

Talvez todas as mulheres conheçam, de uma forma ou de outra, este lugar.

O lugar onde é preciso recomeçar sem vontade, levantar sem certezas, fazer alguma coisa antes de se sentir pronta, fingir força até a força aparecer. A Susana fez isso com as mãos.

Essas mãos, que já tinham bordado, cosido, desmontado peças, colado cristais, desenhado móveis e segurado o Fernando quando ele já não conseguia andar sozinho, acabaram por construir uma marca... e há tanto de profundamente bonito nisso.

Porque a vida nem sempre nos deixa aquilo que pedimos. Às vezes deixa medo, perda, dívidas, mudanças, fins, casas que já não podemos manter, relações que acabam e versões antigas de nós que já não voltam.

Há quem fique parado nesse lugar e há quem pegue no que sobra e tente transformar. A Susana transformou.

Transformou dor em cor, medo em movimento e recomeços em brincos impossíveis de ignorar.

Uma marca para mulheres sem tribo

Há uma frase que acompanha a Susana desde o primeiro dia e que funciona quase como manifesto:

“Sem nomes, estilos, adjetivos ou tribos. É para mim. É para ti.”

É uma frase simples, mas diz muito.

Num tempo em que tudo parece pedir rótulos, estética, nicho, gaveta, tribo, tendência e identidade fechada, a Susana escolhe abrir.

As suas peças podem ir parar a mulheres muito diferentes.
Mulheres discretas que querem apenas um ponto de luz, mulheres exuberantes que querem cor em dose máxima, mulheres que entram no ateliê por acaso, clientes antigas que voltam, turistas que regressam a Lisboa e fazem questão de a visitar, mulheres que chegam inseguras e saem com um par de brincos que lhes muda o rosto.

No fundo, a história de Susana Farinha não é só sobre brincos.

É sobre aquilo que uma mulher faz com o que a vida lhe deixa nas mãos.

Talvez seja por isso que, quando uma mulher usa Susana Farinha, não está só a usar um acessório. Está a usar uma pequena lembrança de que ainda é possível recomeçar, voltar a gostar do que vemos ao espelho e transformar a vida, uma peça de cada vez.

Há marcas que se compram e há marcas que se sentem. A Susana Farinha pertence claramente ao segundo grupo.

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