Há mulheres que não falharam um único dia.
Não porque alguém lhes exigiu isso, mas porque não sabiam amar de outra forma.

Estiveram sempre lá.
Foram presença, resposta, estrutura, equilíbrio.
Foram quem segurou tudo quando era preciso segurar, muitas vezes sem perceber que, mais tarde, esse mesmo compromisso poderia dar lugar a um vazio difícil de explicar, como acontece a tantas mulheres quando os filhos crescem ou quando a vida abranda de repente.

Durante anos, a vida precisou delas assim.
E elas responderam.

A história da Marta (nome fictício)

A Marta nunca se descreveu como uma mãe perfeita, mas esteve sempre lá.

Tratou do que era visível e, sobretudo, do que quase ninguém vê.
Organizou rotinas, antecipou problemas, geriu emoções, tomou decisões sozinha mais vezes do que alguma vez contou em voz alta.

Foi mãe.
Foi também quem manteve a casa a funcionar, a vida organizada, o caos controlado.

Não porque quisesse carregar tudo, mas porque alguém tinha de o fazer.
E porque, com o tempo, isso deixou de ser uma escolha consciente e passou a ser identidade.

Durante muitos anos, houve urgência.
Houve barulho.
Houve necessidade constante.

Até que a vida começou a abrandar.

Quando o vazio aparece: filhos crescidos, divórcio ou mais tempo

O vazio nem sempre chega da mesma forma.

Às vezes aparece quando os filhos crescem e já não precisam de tanto.
Outras vezes surge num divórcio, numa separação, numa guarda partilhada que, de repente, cria dias mais silenciosos.
Há também quem o sinta quando a rotina muda, quando sobra tempo pela primeira vez em muitos anos, seja após um divórcio, numa guarda partilhada ou noutra transição que faz a vida deixar de exigir presença total.

O contexto muda.
A sensação é a mesma.

Um espaço estranho, difícil de explicar, onde antes estava tudo aquilo que nos definia.

O vazio que não nasce do arrependimento

Este vazio não vem do arrependimento.
E isto é essencial dizer.

A Marta, se pudesse voltar atrás, faria tudo igual.
Não porque foi fácil, mas porque não sabia ser diferente.

E aqui está uma verdade pouco dita:
é possível não se arrepender de nada e, ainda assim, sentir tristeza, desorientação e uma sensação profunda de perda.

A psicologia descreve este momento como uma transição identitária. Quando um papel central, como o de mãe cuidadora, pilar emocional ou gestora invisível da vida familiar, perde intensidade, a identidade fica temporariamente sem chão.

Não é fraqueza.
Não é ingratidão.
É humano.

Este vazio emocional fala mais de identidade feminina do que de escolhas erradas. Surge quando uma mulher percebe que grande parte de quem foi esteve ligada a cuidar, organizar e sustentar e que agora precisa de se redefinir fora dessas funções.

Quando a função abranda e a identidade fica suspensa

Durante muito tempo, a Marta foi necessária.
E ser necessária deu-lhe valor, lugar e sentido.

O problema não foi ter sido isso.
O problema foi não ter havido espaço para ser outra coisa ao mesmo tempo.

Muitas mulheres constroem a sua identidade em torno do cuidar, do resolver, do garantir que tudo corre bem. Isto é reforçado culturalmente e, muitas vezes, interiorizado desde cedo.

Quando essa necessidade diminui, o tempo livre não surge como liberdade imediata.
Surge como desorientação.

Porque ninguém nos ensinou a existir sem função.

A carga mental como erosão silenciosa

Há um cansaço que não vem apenas do fazer, mas do pensar constante.

A chamada carga mental é a gestão invisível da vida:
lembrar, antecipar, organizar, decidir.
Saber o que falta antes de faltar.
Manter tudo a funcionar sem que isso seja notado.

A investigação é clara ao mostrar que esta carga recai maioritariamente sobre as mulheres, mesmo em relações consideradas equilibradas e o impacto não é apenas físico ou emocional. É identitário.

Quando essa carga diminui porque os filhos estão menos tempo, porque a casa está mais vazia, porque a rotina mudou , não fica apenas descanso.

Fica silêncio.
E o silêncio também pesa.

O erro de tentar preencher o vazio

Perante esse silêncio, é comum tentar resolver o vazio com ocupação.
Mais tarefas.
Mais projetos.
Mais utilidade.

Mas a psicologia clínica é consistente nisto:
o vazio identitário não se resolve substituindo funções.

Porque o problema não é falta de atividade.
É falta de reconhecimento interno.

Este vazio não pede distração.
Pede elaboração.

O que fazer com este vazio

Não há respostas rápidas.
E qualquer promessa de solução imediata seria desonesta.

Mas há caminhos sustentados.

Reconhecer que isto é uma transição, não um fracasso.
Dar nome ao que se passa reduz sofrimento. Não estás perdida. Estás em reorganização.

Separar valor pessoal de utilidade.
Durante muito tempo, o valor esteve ligado ao fazer. Aprender a existir sem função é um processo profundo, lento e necessário.

Criar espaços sem propósito.
Não hobbies produtivos. Não projetos com objetivos. Espaços onde não és necessária, eficiente ou responsável. Apenas presente.

Fazer luto pelo papel que acabou.
O luto não é apenas por pessoas. É por versões de nós. Ignorá-lo prolonga o vazio. Atravessá-lo transforma-o.

Um final que não fecha

Talvez este vazio não seja um problema a resolver.
Talvez seja um território a atravessar.

Depois de anos a ser tudo para todos,
há uma pergunta que finalmente pode existir sem urgência, sem culpa, sem pressa:

Quem sou eu agora, quando já não preciso de ser tudo?

Essa pergunta não exige resposta imediata.
Exige espaço, tempo e escuta.

Porque este vazio não é um sinal de fracasso, nem de ingratidão.
É um vazio emocional comum em muitas mulheres, sobretudo quando deixam de ser necessárias da mesma forma e começam, talvez pela primeira vez, a procurar quem são para além disso.

E talvez o mais corajoso não seja preencher esse espaço depressa,
mas ficar nele o tempo suficiente para que uma nova versão de ti tenha finalmente lugar.

Se este texto te tocou, talvez também te reconheças noutros artigos do Mamacita sobre maternidade real, cansaço emocional e identidade feminina.Espreita tudo AQUI.

E se houver temas que sentes mas não consegues explicar, podes sempre escrever-me, mesmo sem história completa (e de forma anónima) AQUI.

Outros Artigos