Olá, mamacita,

Há segredos que não entram numa família de repente. Nascem lá, crescem lá, vivem lá e vão nos moldando por dentro, muito antes de termos idade para perceber o que nos está a acontecer.

Esta é a história de uma mulher portuguesa, criada numa aldeia pequena, onde os segredos sobrevivem melhor do que a verdade. É a história de alguém que cresceu a chamar mãe à avó, sem saber que a verdade tinha sido reorganizada.

A infância onde tudo parecia fazer sentido

“Durante toda a minha infância, nunca questionei quem era a minha mãe. Era ela. A mulher que me criou, que me ralhava, que me fazia a sopa quando estava doente, que me dava a mão para atravessar a estrada e que me ensinou a rezar antes de dormir.”

Em casa, existia outra figura. Uma jovem que cresceu ao lado dela e a quem sempre chamou irmã.

“Eu tinha uma irmã mais velha. Era assim que me diziam e era assim que eu a via. Às vezes era carinhosa, às vezes distante. Às vezes parecia saber mais sobre mim do que eu própria, mas era a minha irmã. Nunca duvidei.”

Para quem cresce num ambiente seguro, as etiquetas não são questionadas. São aceites.

“Na aldeia, as pessoas tinham sempre um olhar a mais, uma frase a meio, um silêncio que vinha e ia, mas dentro de casa, a vida seguia e eu achava que a vida era aquilo.”

O desconforto que aparece sem aviso

“As perguntas começaram na adolescência. Olhares estranhos fora de casa, comentários de familiares afastados, um desconforto que eu não sabia explicar.”

Havia coisas pequenas. Detalhes que não encaixavam.

“Às vezes diziam que eu era a cara da minha irmã e eu ficava sem saber se aquilo era elogio ou outra coisa qualquer. Outras vezes, quando eu entrava numa sala, as conversas mudavam de assunto.”

Algo não batia certo, mas ninguém falava.

“Perguntei, disseram-me que eu pensava demais, que não era o momento.”

E quando nos dizem isso vezes suficientes, aprendemos a calar. Não por falta de curiosidade, mas porque alguma coisa dentro de nós percebe, muito antes da razão, que a resposta pode mudar tudo e que talvez ainda não estejamos prontas para a carregar.

O dia em que a verdade caiu na mesa

A verdade chegou já adulta, num daqueles dias banais que, sem aviso, mudam tudo.

“Estávamos na cozinha. A mulher a quem eu chamava mãe tinha um cansaço diferente. Não era só cansaço do corpo, era cansaço de alma, como quem já não consegue guardar mais... ou talvez soubesse que já tinha pouco tempo.”

Houve silêncio, um silêncio que parecia antigo.

“Ela disse que precisava de falar comigo. E eu senti o coração a apertar, como se o meu corpo soubesse antes de mim.”

Não houve dramatismo, não houve preparação.

“Houve apenas uma frase, dita devagar: ‘A tua irmã não é tua irmã.’”

E depois, como se arrancasse um penso colado à pele há décadas:

“‘Ela é tua mãe.’”

O chão não tremeu. O mundo não acabou.

Mas tudo se reorganizou por dentro.

A história por trás do silêncio

A verdade não veio sozinha. Veio acompanhada de um passado que ninguém quis tocar.

A mãe biológica tinha engravidado muito nova, numa situação de violência na aldeia. Um acontecimento que foi abafado, varrido para debaixo do tapete, como tantas histórias que ficaram fechadas entre paredes por medo, vergonha e sobrevivência.

“A minha avó contou-me que fez o que achava que tinha de fazer. Que a minha mãe era uma rapariga, que ninguém a ia proteger, que, se aquilo se soubesse, ela ia ser destruída. E que eu, de certa forma, ia herdar o julgamento.”

Assim, a família fez uma escolha. Trocaram os papéis para que a vida pudesse continuar.

“A minha avó passou a ser a minha mãe. A minha mãe passou a ser a minha irmã e eu cresci a acreditar que aquilo era a verdade.”

Durante anos, foi uma solução, um abrigo, um pacto.

Até deixar de ser.

O impacto invisível dos segredos familiares

Os segredos familiares não desaparecem, instalam-se. Tornam-se a forma como a família se organiza, como as pessoas se olham, como as palavras são escolhidas.
E quando a verdade aparece, não vem só com factos, vem com emoções que não tiveram lugar durante anos.

“O que me doeu não foi a revelação em si. Foi perceber que a minha vida tinha sido construída em cima de um acordo onde eu nunca tive voto.”

Só que havia mais. Havia a pergunta que ninguém queria nomear.

“O meu pai biológico já tinha morrido. E, ainda assim, a sombra dele continuava viva em toda a gente.”

Na aldeia, era um homem conhecido pelos excessos. Daqueles de quem se falava em voz baixa, como se o medo também fosse hereditário. Um homem que, em vida, tinha deixado um rasto de desconforto e silêncio. E, depois de morto, tinha ficado reduzido a um conjunto de frases curtas, ditas sem detalhe, para que ninguém tivesse de voltar a olhar para aquilo de frente.

É normal que, perante uma revelação destas, apareçam fases muito parecidas com um luto.
Choque, raiva, tristeza, confusão. E uma pergunta que se repete com insistência: quem sou eu dentro desta história?

“Eu olhava para a minha mãe, aquela que eu tinha chamado irmã, e não sabia como a tratar. Sentia ternura, mas também sentia uma revolta que me envergonhava. Porque ela não me tinha feito mal, mas eu sentia-me enganada.”

Amar duas mulheres ao mesmo tempo

Há uma parte desta história que é muito difícil de explicar a quem nunca viveu nada semelhante.

É possível sentir amor e mágoa ao mesmo tempo. É possível agradecer e doer. É possível querer abraçar e querer fugir.

“Eu percebi que fui criada com amor. E percebi que aquele amor nasceu de um trauma. Um amor que tentou remendar uma coisa irreparável.”

Com tempo, com conversas difíceis e com espaço para a dor existir, começou a reconstrução.

“Eu precisava de poder fazer perguntas. Precisava de ouvir a história sem me pedirem para ser forte e elas precisavam de perceber que eu tinha direito a estar triste.”

Quando a verdade não destrói, mas reorganiza

A verdade não apaga o passado, mas dá-lhe um lugar.

“Durante muito tempo achei que tinha perdido uma mãe. Depois percebi que nunca a tinha tido da forma que imaginava.”

A mulher que lhe deu a vida nunca a criou. Esteve presente e ausente ao mesmo tempo. Era a irmã, o papel que lhe foi atribuído para sobreviver.

“Ela contou-me que, durante anos, teve medo de me amar. Medo de me olhar e ver tudo o que tinha acontecido. Tentou afastar-se emocionalmente, tentou convencer-se de que eu era apenas a irmã mais nova, porque amar-me como filha parecia-lhe impossível.”

Não por falta de amor, mas por excesso de dor.

“Disse-me que houve momentos em que achou que nunca ia conseguir. Que eu lhe lembrava tudo o que ela queria esquecer... e que, mesmo assim, acabou por acontecer o contrário.”

Com o tempo, a relação transformou-se noutra coisa.

“Ela acabou por me sentir como uma espécie de irmã. Alguém muito próxima, muito sua, mas num lugar diferente. Um lugar onde conseguia respirar.”

E depois havia a outra mulher.

A avó. Aquela que foi mãe desde o primeiro dia.

“Disseram-me que, quando me pegou ao colo pela primeira vez, soube. Soube que eu era dela, que não me tinha parido, mas que me ia criar. Que não sabia como, mas que não me ia largar.”

Foi ela quem ficou.
Quem decidiu.
Quem assumiu.

“Hoje sei que não fui criada por duas mães. Fui criada por uma mulher que me escolheu todos os dias e nasci de outra que fez o melhor que conseguiu com a dor que tinha.”

E isso muda tudo.

“O que sinto agora é uma mistura estranha de gratidão, tristeza e paz. Já não procuro substituir papéis, procuro entendê-los.”

E, apesar de tudo, há uma frase que ficou, dita sem romantismo, mas com verdade:

“Mãe também é quem cria.”

O que esta história nos lembra

Que há famílias inteiras construídas sobre silêncios antigos. Silêncios que não nascem por maldade, mas por medo, vergonha e sobrevivência. E que, com o tempo, deixam de ser uma escolha e passam a ser um modo de vida.

Que nem todos os laços nascem da forma que imaginamos. Há famílias que se constroem às escondidas, com papéis trocados e verdades adiadas, e mesmo assim conseguem ter amor. Um amor imperfeito, mas real.

Que proteger nem sempre é esconder. Às vezes é. Às vezes não. E é por isso que estas histórias são tão difíceis: porque, no meio da dor, também houve intenção de cuidar. Só que o cuidado, quando vem acompanhado de silêncio, pode transformar-se numa ferida.

E que a verdade, dita com cuidado, pode ser o primeiro passo para a cura. Não cura tudo, não apaga nada.. mas dá lugar ao que esteve apertado durante anos. Permite perguntas, permite chorar, permite reconstruir.

Porque há histórias que começam em silêncio, mas só encontram paz quando finalmente são ditas.

E tu, mamacita?

Há perguntas que nunca tiveram resposta na tua família?
Há peças que nunca encaixaram?
Há silêncios que sempre sentiste, mas nunca soubeste explicar?

Se este texto te tocou, fica com isto: não és a única e não estás sozinha.

As Margarita Confessions existem para isso. Para dar nome ao que foi calado. Para criar um lugar seguro onde as histórias podem existir sem julgamento, com respeito e humanidade. 💌

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