Houve uma altura em que parecia que vestir bem significava dizer muita coisa ao mesmo tempo.

Mais cor, mais colares, mais padrões, mais lenços, mais mistura, mais graça, mais personalidade à vista. As Portuguese girlies ajudaram a cristalizar essa ideia numa estética reconhecível e muito sedutora: irreverente, mediterrânica, quente, solar, um bocadinho caótica, mas sempre com algum charme. Lá fora, essa imagem foi lida precisamente assim, como o oposto da contenção nórdica e do minimalismo disciplinado: uma forma de vestir mais viva, mais expressiva e mais espontânea.

E, no entanto, no meio desse ruído, cheio de cor e intenção, há outra imagem a regressar com força ao imaginário coletivo: Carolyn Bessette-Kennedy. O seu nome voltou ao centro da conversa de moda muito por causa da série Love Story, que reacendeu o fascínio pela sua figura, pelo seu minimalismo, pela sua contenção e por aquela forma muito rara de parecer sempre absolutamente composta sem nunca parecer demasiado esforçada. Nos últimos dias, vários títulos de moda e cultura notaram precisamente isso: Carolyn está outra vez por todo o lado, e não apenas como nostalgia. Está a funcionar quase como antídoto.

E talvez a pergunta mais interessante seja esta: depois de anos de excesso visual, de looks hiperexplicados e de identidades muito performativas, estaremos a voltar a desejar o simples?

Não um simples sem graça.
Não um simples sem corpo.
Mas um simples que pareça mais verdadeiro.

Porque é que Carolyn nos volta a seduzir agora?

Carolyn Bessette-Kennedy continua a ter esse efeito estranho nas mulheres: não a olhamos apenas como quem olha para um arquivo de moda. Olhamo-la como quem olha para uma hipótese de vida interior.

Uma camisa branca, um casaco preto, uns óculos escuros, um vestido sem ruído, um cabelo preso quase sem esforço. E, no entanto, tudo ali parecia dizer qualquer coisa. Não riqueza barulhenta, não sedução demasiado óbvia, não tendência gritante. O que a sua imagem transmitia era outra coisa: controlo, clareza, discrição, silêncio, critério. O fascínio pela sua figura tem sido descrito precisamente como uma reação à cultura visual atual, muito mais imediata, saturada e orientada para performance.

Carolyn seduz porque parece lembrar-nos de uma mulher que não está permanentemente a fabricar uma imagem em tempo real. E isso, hoje, quase parece luxo.

Talvez seja isso que nos transporta. Não necessariamente para os anos 90, mas para uma fantasia mais funda e mais íntima: a da mulher que não precisa de adornar tudo para ser memorável, a da mulher que parece alinhada por dentro, a da mulher que não parece esmagada pelo excesso.

E o que é que isto tem a ver com psicologia?

Mais do que parece.

Existe um conceito em psicologia chamado enclothed cognition. O nome não ajuda, eu sei, mas a ideia é muito boa: aquilo que vestimos pode influenciar a forma como pensamos, sentimos e nos comportamos, sobretudo quando associamos determinadas roupas a determinados significados. Num estudo muito citado, participantes que acreditavam estar a usar uma bata de médico tiveram melhor desempenho em tarefas de atenção do que outros participantes a quem a mesma bata foi apresentada como sendo de pintor. A peça era a mesma, o que mudava era o significado.

Ou seja: a roupa não comunica apenas para os outros. Também envia pistas ao nosso cérebro.

Outro estudo sugeriu ainda que roupa mais formal pode estar associada a um pensamento mais abstrato e mais global, mais orientado para o quadro geral, enquanto roupa muito informal pode favorecer uma abordagem mais concreta. Isto não quer dizer que um blazer te transforme numa génia antes do pequeno-almoço. Quer dizer apenas que a forma como te vestes pode ajudar-te a entrar num certo estado mental.

É aqui que o tema deixa de ser fútil e passa a ser interessante. Porque talvez não nos vistamos apenas para parecer uma certa mulher. Talvez, muitas vezes, nos vistamos para nos sentirmos mais próximas dela.

As Portuguese girlies e Carolyn não são inimigas

E este ponto, para mim, é o mais importante.

Seria preguiçoso escrever este texto como se estivéssemos perante uma guerra entre o maximalismo divertido das Portuguese girlies e o minimalismo silencioso de Carolyn Bessette-Kennedy. Não é isso, não são duas estéticas em duelo final. São duas respostas diferentes a desejos diferentes.

As Portuguese girlies trouxeram uma ideia de feminilidade cheia de humor, mistura, liberdade e calor. Uma moda mais vivida, mais expressiva, menos obediente à rigidez do “bom gosto” clássico. Em vez de apagarem a personalidade, ampliaram-na, em vez de esconderem o prazer de vestir, fizeram dele linguagem e isso também tem inteligência, também tem força, também pode ser profundamente real.

Carolyn, por outro lado, representa outra fantasia. Menos exuberância, mais edição. Menos estímulo, mais presença. Menos construção visível, mais naturalidade bem afinada. Se as Portuguese girlies dizem “vê-me”, Carolyn parece dizer “eu não preciso de pedir para seres tu a olhar”.

As duas têm espaço. As duas revelam coisas sobre o que queremos vestir para fora e sobre o que precisamos de organizar por dentro.

Então, será que vamos voltar ao simples?

Talvez sim. Mas não da forma moralista com que às vezes se fala do minimalismo.

Não me parece que estejamos a caminhar para uma rejeição total do excesso, da cor, da irreverência ou da graça. O que me parece é que estamos a entrar numa fase de maior fadiga visual. Depois de demasiadas estéticas, demasiadas microtendências, demasiadas fórmulas para “ser uma certa girl”, começou a tornar-se sedutor aquilo que parece menos forçado.

E é aí que Carolyn regressa.

Não porque seja “melhor” do que as outras, mas porque, no meio de tanta roupa a pedir atenção, a sua imagem quase sussurra.
E às vezes um sussurro faz-se ouvir mais do que um grito.

Hoje, a imagem dela parece fresca precisamente porque não parece ansiosa. Não parece desesperada por ser identificada como tendência. Não parece dependente do aplauso imediato. E esse tipo de calma visual pode ser muito poderoso numa era em que quase tudo parece concebido para ser consumido em dois segundos.

O simples aconchega-nos mais porque nos parece mais real?

Acho que, muitas vezes, sim.

Não porque o simples seja automaticamente mais autêntico. Há minimalismos profundamente artificiais e há excessos absolutamente sinceros. Mas porque, quando o ruído cresce demasiado, começamos a desejar imagens que nos deixem respirar.

E o que a imagem de Carolyn oferece é precisamente isso: espaço.

Espaço para projetarmos nela uma feminilidade menos exausta, menos hipereditada, menos dependente de estar constantemente a dizer quem é. Espaço para imaginarmos que talvez a elegância esteja menos em acrescentar e mais em escolher. Espaço para acreditarmos que o poder não tem de ser berrado para ser sentido.

O simples aconchega quando não nos parece vazio. Quando não é ausência de personalidade, mas presença de critério.

Talvez seja por isso que tantas mulheres continuam a voltar àquela imagem. Não para copiar exatamente a camisa, o casaco ou o corte de cabelo. Mas para tentar recuperar o que ela simboliza: ordem interior, contenção, nitidez, e uma espécie de serenidade que hoje parece quase revolucionária.

O que é que o nosso armário tem a ver com isto tudo?

Tem tudo.

Porque o armário nunca é apenas um conjunto de peças. É um arquivo de versões de nós. Há roupa para desaparecer, há roupa para aguentar, há roupa para seduzir, há roupa para trabalhar, há roupa para descansar e há roupa que parece dizer ao cérebro: hoje preciso de mim inteira.

A psicologia da roupa não nos pede que vivamos mascaradas de outra pessoa. Pede-nos apenas que prestemos atenção ao significado que damos ao que vestimos. Se uma peça te faz sentir mais focada, mais segura, mais direita, mais clara, isso importa. Se outra te desliga do dia, te encolhe ou te faz sentir desfocada, isso também importa.

Vestir-te não é só cobrir-te. É, muitas vezes, regular-te.

E talvez seja por isso que este debate entre o ruído bom das Portuguese girlies e o silêncio afinado de Carolyn seja tão interessante. Porque não é apenas sobre moda, é sobre o que a nossa cabeça, o nosso corpo e o nosso tempo estão a pedir.

No fundo, talvez haja espaço para tudo

E ainda bem.

Há dias de fruta, brincos, lenços, colares e alegria visual.
Há dias de camisa branca, casaco escuro e silêncio.
Há dias em que queremos ser festa.
Há dias em que queremos ser linha limpa.

O problema nunca esteve na abundância nem na simplicidade. O problema está quando a imagem deixa de parecer habitada. Quando já não vemos uma mulher dentro da roupa, apenas uma tendência em cima dela.

As Portuguese girlies continuam a fazer sentido porque trazem prazer, humor e vida. Carolyn volta a conquistar porque nos lembra de outra coisa igualmente importante: a força do que não precisa de exagerar.

Talvez não estejamos a voltar ao simples de forma absoluta.
Talvez estejamos, finalmente, a voltar ao essencial.

E o essencial, quando é verdadeiro, continua a ser a coisa mais sedutora de todas.

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