A primavera chegou e, com ela, voltou também a velha guerra com o espelho. Esta é a história de Maria Clara, que achou que emagrecer lhe ia trazer paz, mas percebeu que a relação com o corpo pode continuar ferida mesmo quando o peso muda.

A primavera tem esta mania discreta de nos mexer com a cabeça sem tocar diretamente no corpo.

Chegam os dias mais compridos, a roupa mais leve, os almoços ao sol, os convites de última hora, as fotografias sem filtro de inverno, os braços e as pernas de fora, a luz mais crua. E, para muitas mulheres, regressa também uma conversa antiga consigo mesmas. Como estou, .como me vejo, como me vão ver. O que mudou, o que ainda incomoda.

Às vezes, basta uma mudança de estação para a relação com o corpo voltar a ocupar um espaço demasiado grande na cabeça.

A história da Maria Clara começa precisamente aí: naquele momento do ano em que o corpo deixa de ser só corpo e volta a ser pensamento, comparação e ruído.

“Na primavera do ano passado comecei a sentir outra vez aquela inquietação que eu conhecia bem. O sol começou a aparecer mais, a roupa ficou mais leve, e eu dei por mim a pensar no meu corpo com uma intensidade que já não sentia há algum tempo.

Era como se a mudança de estação me obrigasse a olhar para mim de uma forma mais dura. Como se, de repente, tudo o que eu tinha conseguido ignorar no inverno voltasse a estar à frente dos meus olhos.”

A Maria Clara achou que emagrecer lhe ia trazer paz

Muitas mulheres crescem a acreditar na mesma promessa: a de que emagrecer vai resolver mais do que o corpo. Vai resolver o desconforto, a vergonha, a insegurança, a dificuldade em existir com leveza.

Maria Clara acreditou nisso durante anos.

“Durante muito tempo achei que o meu desconforto vivia todo no meu corpo. Ou, mais precisamente, no peso que eu tinha a mais, na roupa que me deixava desconfortável, nas fotografias que eu apagava, no espelho que eu evitava em certos dias.

Convenci-me de que, se um dia conseguisse emagrecer, qualquer coisa em mim havia finalmente de assentar. Que me ia sentir mais leve, mais segura, mais solta, mais feliz.

E durante algum tempo até pareceu que sim.”

Os elogios que pareciam validação

À primeira vista, tudo parecia estar a correr bem. O corpo mudava, os outros reparavam e com isso chegavam os elogios que tantas vezes confundimos com alívio.

Mas nem toda a validação traz paz.

“Comecei a perder peso. As pessoas repararam. Vieram os elogios, os comentários, o clássico "estás ótima", "que diferença", "nem pareces a mesma".

E eu sorri, claro. Sorri porque era suposto aquilo saber bem... e numa parte de mim até sabia. Mas noutra começou a nascer uma inquietação que eu não tinha antecipado.”

Quando emagrecer não traz descanso

É aqui que a história ganha outra profundidade. Porque perder peso nem sempre traz descanso. Às vezes, traz vigilância, traz medo, traz uma necessidade ainda maior de controlo.

E esse é um lado de que se fala muito pouco.

“Quanto mais emagrecia, mais sentia que tinha de continuar. Quanto mais elogios recebia, mais medo tinha de voltar atrás. Quanto mais o meu corpo se aproximava daquilo que eu tinha idealizado, mais a minha paz se afastava.

Eu achava que queria emagrecera. Mas, na verdade, o que eu queria era sentir me suficiente e isso não veio com menos peso.”

Depois da meta aparente, não chegou a paz, chegou outra forma de tensão.

“Comecei a olhar para a comida de forma mais tensa, a sair menos à vontade, a escolher roupa não porque gostava dela, mas porque me confirmava qualquer coisa, a medir o meu dia pela forma como a barriga me parecia ao espelho, a sentir que um almoço mais solto tinha quase de ser compensado... a viver em vigilância.”

Quando o corpo muda, mas a insegurança fica

Há uma ideia muito vendida às mulheres de que o desconforto com o corpo desaparece assim que o corpo muda. Mas nem sempre é isso que acontece. Por vezes, o corpo muda mais depressa do que a forma como a mulher se vê. A insegurança pode permanecer, a autoimagem pode continuar presa à versão antiga e o sofrimento não desaparece só porque o espelho mostra outra coisa.

Foi isso que Maria Clara percebeu.

“Hoje consigo ver melhor o que na altura não queria admitir: eu não estava em paz. Estava só mais validada.

No meu caso, emagrecer não curou a insegurança. Só a tornou mais exigente.

Passei a sentir mais pressão, mais medo, mais dependência da validação exterior e percebi uma coisa difícil: quando a nossa auto-estima fica demasiado agarrada ao aspeto físico, qualquer mudança parece pôr tudo em risco.”

Nem toda a disciplina é paz

Há comportamentos que, vistos de fora, parecem disciplina, foco ou autocontrolo, mas, por dentro, podem ser outra coisa: tensão constante, medo de falhar, incapacidade de relaxar.

A Maria Clara percebeu isso tarde, mas percebeu.

“Aquilo a que eu chamava ‘disciplina’ estava muitas vezes mais perto de tensão do que de bem-estar. Quando há medo constante de perder o controlo, o resultado nem sempre é leveza. Muitas vezes, é mais irritação, mais ansiedade, mais rigidez e menos prazer.

O mais estranho é que, por fora, parecia que eu estava melhor do que nunca. Mas por dentro sentia-me mais presa do que antes.”

A falsa ideia de que perder peso resolve tudo

Há histórias que mexem connosco precisamente porque desmontam uma promessa que nos ensinaram cedo demais: a de que, se mudarmos o corpo, tudo o resto se resolve.

Mas nem sempre o peso é a raiz do sofrimento. Muitas vezes, é apenas o lugar onde ele se manifesta com mais facilidade e quando a mulher consegue finalmente chegar ao corpo que idealizou, o choque pode ser brutal se a paz, a segurança e a leveza não vierem com ele.

A Maria Clara pôs isso em palavras de forma muito clara.

“Eu percebi que tinha passado anos a depositar no emagrecimento uma espécie de esperança total. Como se, quando o meu corpo mudasse, tudo dentro de mim mudasse também.

Mas isso não aconteceu.

A insegurança não desapareceu, a comparação não desapareceu, a necessidade de validação não desapareceu... só ficaram com outra cara.

E isso foi duro de admitir.”

O verdadeiro ponto de viragem pode não estar no peso

Talvez a parte mais importante desta história esteja aqui. No momento em que a Maria Clara percebe que o problema não se resolve necessariamente com mais controlo, mais esforço ou menos peso.

Às vezes, o verdadeiro ponto de viragem está em sair da guerra.

“Este ano decidi fazer diferente.

Decidi não entrar na primavera em guerra comigo. Decidi que não quero passar mais uma estação inteira a negociar o meu humor com o espelho. Não quero viver os dias de sol a pensar na luz, no ângulo, no braço, na barriga sentada, na fotografia inesperada, no comentário que pode vir. Não quero continuar a despejar no meu corpo tudo aquilo que não sei resolver em mim.”

Essa decisão não significa perfeição, significa lucidez. Significa começar a olhar para a relação com o corpo de outra maneira.

“Não estou a dizer que cheguei a um lugar perfeito, porque não cheguei. Ainda tenho dias bons e dias maus. Ainda há roupa que mexe comigo. Ainda há espelhos que me apanham desprevenida, mas percebi uma coisa importante: emagrecer não me salvou.

E talvez a paz nunca tenha estado no tamanho do meu corpo, mas na forma como eu aprendo a olhar para ele sem fazer dele um inimigo.

Se há uma relação que eu quero mesmo cuidar, não é a relação com a balança. É a relação comigo.”

Quando pedir ajuda também é uma forma de cuidado

Nem toda a dor em torno do corpo é visível. Nem toda a mulher que emagrece está melhor. Nem todo o elogio alivia. E nem toda a disciplina é paz.

Talvez a primavera possa ser isto também: não uma nova corrida para caber melhor na roupa, nas expectativas ou na versão idealizada de nós mesmas, mas uma oportunidade para olhar de frente para a forma como nos tratamos.

Às vezes, não precisamos de perder peso. Precisamos de deixar de achar que o nosso valor mora no espelho.

Sentir desconforto com o corpo é mais comum do que muitas mulheres imaginam, mas quando a relação com a imagem, com a comida ou com o controlo do peso começa a ocupar demasiado espaço mental, a causar sofrimento ou a interferir com a vida, procurar apoio profissional pode ser um passo importante.

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