NOTA: Este é um espaço onde o julgamento fica à porta. A intenção não é justificar nem condenar, mas criar um lugar de empatia e reflexão para mulheres que vivem dilemas que muitas vezes são tão solitários quanto complexos.

A “Helena” é um nome fictício. O conteúdo é narrativo e baseado em experiências reais que chegam até mim, preservando sempre a privacidade de quem escreve.

Envelhecer sendo mulher: quando as rugas chegam antes da paz interior

A Helena escreveu-me num daqueles dias em que o espelho parece mais iluminado do que devia e os filtros do telemóvel já não chegam para calar o que se passa cá dentro.

A mensagem chegou ao Instagram do @mamacita_mag com aquele tom de meia brincadeira, meia confissão.

“Vou fazer 45 e toda a gente diz que estou ótima para a idade. Por dentro sinto-me cansada, insegura, perdida. Toda a gente fala da paz interior dos 40. Acho que as minhas rugas chegaram antes dessa paz.”

A Helena quis contar a sua história porque se cansou da narrativa cor-de-rosa de que, depois dos 40, as mulheres acordam iluminadas, resolvidas e em plena aceitação do corpo.

“É como se houvesse um guião que eu não estou a cumprir. Eu tinha de estar super segura, cheia de amor próprio, muito ‘idgaf’ (I Don't Give A Fuck). Em vez disso, dou por mim a chorar no carro porque me sinto a desaparecer.”

Foi assim que começou esta conversa sobre envelhecer sendo mulher, quando as rugas, as dores e as dúvidas chegam muito antes da famosa paz de espírito.

A idade que vem na certidão, mas não acompanha cá dentro

A Helena tem 45 anos, é mãe de dois filhos, trabalha numa área que sempre gostou e, olhando de fora, parece ter a vida bem organizada. Casa, trabalho, amigos, família.

“Se alguém me visse apenas pelo Instagram, dizia que eu estava na minha melhor fase. Tenho estabilidade, viajo de vez em quando, tenho amigas, um casamento que se mantém, mas por dentro sinto-me num limbo. Já não sou ‘nova’, mas também não me sinto aquela mulher super sábia e segura que dizem que se é aos 40.”

A pressão não vem só de fora. Vem também das frases que aprendemos a repetir.

• “Envelhecer é um privilégio.”
• “A beleza vem de dentro.”
• “Aos 40 ficas mais confiante.”

Tudo pode ser verdade em teoria e, ainda assim, nem sempre é assim na prática.

“Eu sinto-me grata por estar viva, claro, mas também sinto medo, inveja das miúdas mais novas, raiva de algumas marcas no corpo. É como se não pudesse admitir isto porque parece ingratidão.”

Envelhecer sendo mulher é, muitas vezes, viver entre dois discursos. Um que exige aceitação plena. Outro que alimenta o terror de envelhecer. Pelo meio, existe uma zona cinzenta onde muitas mulheres vivem e quase não falam.

O espelho que deixou de ser neutro

Perguntei à Helena quando é que isto começou a doer mais. Ela não hesitou.

“Foi quando deixei de reconhecer a cara ao primeiro olhar. Não foi um dia específico. Foram vários dias a notar pequenas coisas. Um sulco mais fundo aqui, a pele mais descaída ali, a maquilhagem a assentar de forma diferente. Eu sabia que isto ia acontecer, só não estava à espera que me mexesse tanto por dentro.”

Há um momento em que o espelho deixa de ser apenas um objeto e passa a ser um lembrete diário de que o tempo está a passar.

As olheiras já não desaparecem só com uma boa noite de sono.
A pele do pescoço começa a contar a verdade que os filtros tentam esconder.
A roupa que antes resultava em qualquer dia passa a ter dias em que já não funciona.

“Comecei a reparar que, quando tirava uma fotografia com as minhas sobrinhas, elas olhavam logo para si, aumentavam a imagem e diziam ‘estou gira’ ou ‘não gosto desta, tira outra’. Eu olhava para mim e pensava ‘quando é que isto aconteceu?’.”

Não é futilidade. É identidade. O rosto onde crescemos habituadas a viver começa a mudar e, com ele, a forma como nos sentimos vistas pelo mundo.

O que sabemos de confiança sobre esta fase

Este artigo é uma narrativa, mas há coisas importantes que são factos e que ajudam a enquadrar o que tantas mulheres sentem, sem culpa e sem vergonha.

  • A perimenopausa e a menopausa podem trazer sintomas emocionais e cognitivos como ansiedade, oscilações de humor, baixa autoestima e dificuldades de concentração.
  • Uma revisão sistemática e meta análise publicada em 2024 encontrou um aumento significativo do risco de sintomas depressivos e diagnósticos de depressão na perimenopausa, quando comparado com a fase pré menopausa.
  • Há investigação específica em mulheres com 40 ou mais anos a estudar como o uso de redes sociais e a pressão estética se podem relacionar com preocupações de imagem corporal.
  • O ageísmo existe, tem impacto, e a World Health Organization reúne evidência sobre como afeta a saúde e o bem estar, e sobre o que funciona para o contrariar.

Se te revês nisto, não estás a inventar, nem a ser dramática. Pode haver uma base biológica, uma base social e uma base emocional a acontecer ao mesmo tempo.

A pressão de parecer mais nova e de parecer estar acima disso

Há uma dupla exigência muito específica colocada às mulheres, e muitas reconhecem isto mesmo quando tentam fingir que não.

Por um lado, espera-se que pareçam sempre mais novas do que são.
Por outro, espera-se que estejam super descontraídas em relação à idade, cheias de autoestima e “desapegadas” da aparência.

Ou seja, supostamente não queremos parecer velhas, mas também não queremos admitir que isso nos preocupa.

“Se digo que estou triste porque noto que estou a envelhecer, oiço logo o bingo completo. ‘Estás ótima, olha para mim.’ ‘Há pessoas na cama de hospital.’ ‘Isso é falta de coisas interessantes para fazer.’ Deixei de falar disso. Fiquei a viver isto sozinha.”

A vergonha de sofrer com o envelhecimento existe porque associamos imediatamente esta dor à superficialidade. Mas, muitas vezes, não tem nada a ver com vaidade. Tem a ver com identidade, com medo de ficar invisível, com o luto pela versão de nós que existiu durante muitos anos.

As pequenas mortes que vêm com a idade

Para a Helena, o que mais dói não é uma ruga específica. São as pequenas perdas que vieram com a idade.

“Antes eu entrava numa sala e sentia-me automaticamente incluída. Hoje dou por mim a ser ‘senhora’ em sítios onde ainda me sinto miúda por dentro. Sinto que deixei de ser o centro. Não sou o centro, nem da atenção, nem da conversa, nem dos planos.”

Envelhecer sendo mulher traz uma série de micro lutos silenciosos.

  • O luto pela espontaneidade, já não se recupera de uma noite mal dormida como aos 25.
  • O luto pela energia, o corpo cansa mais rápido, o sono é mais leve, as dores aparecem do nada.
  • O luto pela centralidade, passamos de ser “miúdas” para ser “a mãe de”, “a colega mais velha”, “a tia”.

“Não é que eu queira voltar a ter 20 anos. Eu não quero, mas às vezes custa-me perceber que algumas portas já não se abrem da mesma forma. Em entrevistas, eu sinto que, mesmo que não digam nada, já me estão a ver como ‘mais velha’. No amor, vejo amigas divorciadas a tentar voltar a namorar e percebo o quanto a idade pesa.”

Não é apenas o corpo que envelhece, é também a forma como o mundo, em certos contextos, responde a esse corpo.

A ilusão da mulher resolvida aos 40

Existe uma imagem muito vendida da mulher de 40, impecável, segura de si, confiante, com a carreira orientada, rodeada de amigas, que já não tolera nada “abaixo da sua energia”.

É inspirador, sim... mas pode ser também opressivo.

“Eu sinto que falhei este ideal. Tenho noites em que me sinto uma adolescente mal resolvida dentro de um corpo de 45 anos. Ainda tenho ciúmes, ainda me comparo com outras mulheres, ainda tenho dias em que me sinto péssima. E depois vem a culpa, porque supostamente eu tinha de estar numa fase de aceitação.”

A paz interior não é um pacote que aparece no dia em que fazemos 40 anos. É um processo, muitas vezes lento e quase nunca linear.

O problema não é não estar em paz. O problema é acreditarmos que somos as únicas que ainda não chegaram lá.

O que pode ajudar a fazer as pazes com este capítulo

Não há fórmula mágica, mas há ideias que podem aliviar o caminho.

Reconhecer as perdas sem as diminuir

Sim, há coisas que ficaram para trás. Sim, dói. Não é drama, nem falta do que fazer. É um luto real. O corpo muda, a cara muda, o lugar que ocupas no mundo muda. Nomear isto é importante para não ficares sozinha dentro de uma dor legítima.

Permitir sentimentos contraditórios

É possível estar grata por envelhecer e, ao mesmo tempo, sentir tristeza e raiva por certas mudanças. Uma coisa não invalida a outra. Não és ingrata por, às vezes, quereres o rosto de antes. És humana.

Questionar o ideal que te venderam

A ideia da mulher hiper resolvida pode ser inspiradora, mas não é obrigação. Não tens de estar sempre forte, sempre segura, sempre lúcida. Podes estar em construção aos 25, aos 40 e aos 60.

Lembrar que também houve ganhos

Com a idade, muitas vezes ganhamos coisas que nem sempre valorizamos: mais capacidade de pôr limites, mais clareza sobre o que não queremos, menos tolerância a relações tóxicas. Nem tudo o que o tempo traz é perda.

Cuidar do corpo como casa, não como projeto eternamente inacabado

Isto pode significar consultar um dermatologista, rever a rotina de cuidados, voltar a treinar, comer de forma menos punitiva.

Faz isto por respeito ao corpo que te carrega, não por ódio ao espelho.

ESPREITA, POR EXEMPLO ESTE ARTIGO: Rotina Antienvelhecimento: os Erros Que Estás (Provavelmente) a Cometer

Reparar em quem te vê para lá da tua idade

Existem pessoas que continuam a achar-te interessante por quem és, não pela firmeza da pele. Amigas, parceiros, colegas que te escutam, confiam em ti, se inspiram em ti. Estes olhos também contam... e muito.

A conversa que a Helena teve finalmente consigo mesma

A Helena passou meses a procurar truques para disfarçar o que a incomodava. Cremes, massagens, filtros, ângulos. Nada disto é errado. Mas ela começou a perceber que não era ali que a dor principal estava.

“Um dia, ao ver uma foto antiga, em vez de pensar ‘estava mais magra’ ou ‘não tinha rugas’, pensei ‘ela não fazia ideia do que ia aguentar’. Tive vontade de abraçar a versão mais nova de mim, não de a invejar. E foi aí que percebi que o problema já não era só estético. Era a forma como eu falava comigo.”

Começou, devagar, a treinar outra narrativa interna.

“Em vez de dizer ‘estás velha’, comecei a tentar ‘estás diferente, e com tudo o que já passaste, faz sentido’. Ainda tenho muitos dias de não gostar do que vejo, mas já não me trato como inimiga. É um começo.”

A paz interior ainda não chegou na embalagem perfeita que o Instagram promete, mas a Helena sente que há qualquer coisa a mudar.

“Eu ainda não estou em paz com o envelhecer, mas comecei a ficar em paz com o facto de não estar em paz. E, estranhamente, isso acalmou-me.”

Se sentes que as tuas rugas chegaram antes da paz, isto é para ti

Se olhas ao espelho e ficas com vontade de chorar, mesmo sabendo que “devias estar grata”.
Se te sentes a meio caminho entre a miúda que foste e a mulher que achas que já devias ser.
Se tens vergonha de admitir que te custa envelhecer, porque achas que isso te torna superficial.

Isto não é fraqueza. É sinal de que te importas com a forma como existes no mundo, por dentro e por fora.

O que pode acalmar o coração, aos poucos, é perceber que:

  • Não és a única a sentir isto, mesmo que toda a gente finja estar sempre bem.
  • Podes chorar pela pele que muda e, ao mesmo tempo, honrar o corpo que sobreviveu a tudo o que já viveste.
  • Envelhecer não é um castigo, mas também não tem de ser uma festa constante. Pode ser um caminho ambíguo, com dias bons e dias péssimos.
  • Ainda há muito para viver, descobrir, desejar e reinventar na idade em que estás.

Se calhar, a paz interior não é um estado perfeito onde deixas de te importar com tudo. Talvez seja só o lugar onde deixas de te atacar tanto por ainda te importares.

Nota importante, com carinho

Este texto não substitui acompanhamento médico ou psicológico. Se te revês nisto e sentes que te estás a afundar, pede ajuda. Em Portugal, o serviço de aconselhamento psicológico do SNS 24 está disponível através da linha 808 24 24 24.

Se quiseres, este espaço também é teu

Se estás a viver este luto silencioso da idade e sentes que ninguém leva isto a sério, não tens de atravessar isto sozinha.

Podes sempre escrever-me de forma anónima nas Margarita Confessions. Ou falar comigo diretamente, pelo chat do Instagram da Mamacita. A única coisa garantida é que serás recebida com respeito, cuidado e empatia.

A Mamacita existe para que este tipo de dor não precise de viver escondida debaixo de frases feitas como “estás ótima para a tua idade” ou “envelhecer é um privilégio, não reclames”.

Porque, no fim, aquilo que mais cura não é ouvirmos que “a idade é só um número”.
É saber que, enquanto esse número sobe e a pele muda, não estás sozinha do lado de cá do espelho.

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