Julgar os outros é fácil.
Mas fácil não é sinónimo de justo.
O bom senso começa quando percebemos que observar uma decisão não é o mesmo que compreender uma vida e que avaliar um comportamento não nos dá, automaticamente, autoridade para condenar uma pessoa inteira.
O nosso olhar é sempre parcial
Nenhum de nós olha o mundo de um ponto neutro.
O nosso julgamento é moldado pela nossa história, pela cultura em que crescemos, pelas experiências que tivemos e pelas que nunca tivemos. Isto não é opinião: é um facto amplamente reconhecido sobre o funcionamento humano.
Quando esquecemos isso, corremos um risco sério: transformar o nosso ponto de vista numa régua universal e nenhuma régua pessoal serve para medir vidas alheias.
Reconhecer limites não é fragilidade, é maturidade.
Há uma diferença clara entre avaliar atos e julgar pessoas
Avaliar comportamentos é necessário.
A sociedade funciona com princípios, regras e consequências. Nada disto está em causa.
O problema surge quando um ato isolado passa a definir o valor inteiro de alguém. Quando uma decisão se transforma numa identidade. Quando o erro se torna caráter.
Essa passagem é injusta, imprecisa e intelectualmente preguiçosa. Pessoas não são equivalentes aos seus piores momentos. Nem aos seus melhores.
Contexto não é desculpa. É informação.
Compreender contexto não significa desculpar tudo.
Significa reconhecer que decisões humanas não surgem no vazio.
Sabemos, de forma consistente, que fatores emocionais, relacionais, sociais e psicológicos influenciam escolhas. Ignorar isto não torna o julgamento mais firme, torna-o menos informado.
Bom senso não é fechar os olhos à responsabilidade.
É recusar conclusões simplistas sobre realidades complexas.
O julgamento moral agressivo não melhora comportamentos
Este ponto é crucial e comprovado:
a exposição, a humilhação e o ataque moral público não promovem mudança positiva. Produzem defesa, silêncio ou radicalização.
As pessoas refletem e ajustam comportamentos em ambientes onde existe segurança para pensar, não em contextos de medo ou vergonha. Julgar pode satisfazer quem julga, mas raramente contribui para qualquer evolução real.
Respeitar não é concordar nem validar
Este esclarecimento é essencial.
Respeitar alguém não significa aprovar as suas escolhas.
Não significa normalizar comportamentos.
Não significa abdicar de valores.
Significa apenas reconhecer humanidade, dignidade e complexidade. É possível discordar profundamente sem desumanizar. Aliás, essa é uma das marcas da maturidade ética.
Nem toda a opinião é necessária, mesmo que seja legítima
Ter uma opinião não implica ter de a expressar.
A liberdade de expressão não elimina a responsabilidade de ponderar impacto, utilidade e intenção.
Antes de falar, há perguntas simples que fazem toda a diferença:
– Isto acrescenta alguma coisa?
– Isto é proporcional?
– Estou a contribuir para compreensão ou apenas a descarregar julgamento?
O silêncio, muitas vezes, não é omissão. É discernimento.
O lugar do outro nunca é teórico
O lugar do outro é vivido.
Com limites, pressões, contradições e circunstâncias que raramente são visíveis de fora.
Colocar isto em conta não exige empatia cega nem suspensão de valores. Exige apenas honestidade intelectual: admitir que sabemos menos do que gostaríamos sobre a vida dos outros.
O verdadeiro bom senso é este
Manter critérios sem perder humanidade.
Reconhecer responsabilidade sem recorrer à condenação.
Saber que o nosso olhar é apenas um entre muitos.
Antes de julgar, lembrar-nos sempre de onde estamos a olhar.
E lembrar-nos também de que, vistos de fora e sem contexto, todos nós poderíamos ser julgados de forma redutora.
O bom senso não elimina o julgamento. Coloca-o no seu devido lugar e isso não enfraquece a ética. Fortalece-a.
No fim, há uma diferença clara entre ter valores e ter pedras na mão.
O bom senso é saber ficar com os primeiros e largar as segundas.
É perceber que critérios não exigem dureza, que discordar não pede violência e que a humanidade do outro não diminui a nossa.
Às vezes, o verdadeiro exercício é simples e exigente ao mesmo tempo: olhar com mais cuidado, falar com menos certezas e lembrar que ninguém é apenas uma coisa.
Nem os outros.
Nem nós.
