NOTA: Este é um espaço onde o julgamento fica à porta. A intenção não é diagnosticar nem dramatizar, mas criar um lugar de empatia e escuta para mulheres que, em algum momento, sentiram um vazio que não sabiam explicar.

A “Marta” (nome fictício) escreveu-me uma mensagem a dizer que tinha um assunto de que gostava de falar comigo, mas quase a pedir desculpa por isso.
“Desculpa incomodar-te com isto… é uma coisa parva, eu sei”, escreveu.

E foi nesse “desculpa” que percebi que o que vinha a seguir não era parvo. Era humano.
“Tenho uma vida boa, um trabalho estável, um companheiro que me ama… e mesmo assim, às vezes, sinto-me triste. E o pior é a vergonha que isso me dá.”

Foi assim que começou uma conversa sobre um tipo de tristeza que não tem nome, nem motivo, mas pesa como se tivesse todos.

O Peso Invisível

A Marta tem 34 anos. Vive em Lisboa, trabalha em marketing e passa os dias a gerir campanhas, ideias e urgências. O tempo escapa-lhe pelos dedos, como se vivesse sempre um pouco atrasada para si própria.
“Às vezes penso que não me falta nada, e mesmo assim há dias em que só me apetece desaparecer. É uma tristeza que chega sem aviso e sem justificação. Não aconteceu nada, não há drama, mas sinto-me vazia.”

Pausa.
“E depois vem a culpa. Porque há pessoas que têm razões reais para estar mal e eu… eu só devia estar grata.”

A culpa é uma palavra que se repete em todas as mulheres que me falam disto (muitas pelas confissões).
A culpa de não estar feliz o suficiente. De não ter um motivo claro para o desânimo. De não corresponder à imagem da mulher forte, positiva e inspiradora que o mundo espera ver.

O Elogio da Força

“És tão forte”, dizem-lhe muitas vezes.
Mas ninguém pergunta o que custa ser sempre forte.

“É como se a tristeza não me fosse permitida”, conta-me a Marta. “Se me queixo, sinto que estou a ser ingrata. Se choro, parece que estou a exagerar. Então sorrio. Trabalho mais. Finjo que está tudo bem. Só que por dentro, há um silêncio enorme.”

É esse o problema de viver num mundo onde a força se tornou uma obrigação.
Ser forte o tempo todo é uma forma disfarçada de solidão.

A Tristeza Que Não Cabe em Nenhum Post

Vivemos rodeadas de frases motivacionais, filtros de felicidade e hashtags que nos dizem para “agradecer mais” e “vibrar alto”.
Mas há dias em que agradecer parece fingimento, e vibrar é um verbo cansado.

A tristeza, essa emoção humana e necessária, foi transformada em falha.
E é aí que nasce a vergonha.

“Quando me sinto em baixo, não conto a ninguém. Tenho medo de ouvir ‘isso passa’, ‘estás a pensar demais’, ‘vai fazer exercício’. Não é isso que preciso. Às vezes só quero que alguém diga: ‘está tudo bem em não estares bem’.”

O Corpo Que Grita Devagar

O que Marta descreve tem outro nome: esgotamento emocional.
A mente cansada disfarçada de produtividade.
O corpo tenso disfarçado de energia.
O sorriso automático disfarçado de felicidade.

É o preço de uma vida onde tudo parece sob controlo, até que o corpo começa a falar.
“Às vezes sinto o coração a acelerar, sem razão. Ou o estômago fechado. Ou um cansaço que não passa com sono. E é nessas alturas que percebo: não é o corpo que está doente, é a alma que está cansada.”

A Coragem de Parar

Nos últimos meses, a Marta começou a fazer algo que antes achava fraqueza: parar.
“Deixei de encher todos os espaços. Às vezes digo não a convites, desligo o telemóvel e fico em silêncio. No início sentia-me culpada, agora sinto-me mais viva.”

Aprendeu a fazer uma coisa simples e poderosa: ouvir-se.
Não para encontrar a razão da tristeza, mas para lhe dar espaço.
“Há dias em que só quero estar quieta. E percebi que isso não é desistir, é cuidar.”

A Tristeza Também é Um Lugar

A Marta ainda tem dias em que a tristeza volta.
Mas agora já não a esconde.
“Em vez de me envergonhar, tento perceber o que ela me quer dizer. Às vezes é só cansaço. Outras, é um pedido de pausa. Outras, é apenas o corpo a lembrar-me que sou humana.”

E talvez seja esse o segredo: aceitar que não precisamos de estar sempre bem.
A tristeza também é um lugar, e às vezes é lá que começamos a entender quem somos.

Quando a Alegria Volta

No final da nossa conversa, a Marta disse algo que me ficou:
“Antes queria curar-me. Agora quero acolher-me. Acho que a alegria só começa a voltar quando deixamos de fingir que ela nunca se foi.”

E é isso que tantas mulheres precisam de ouvir:
Não há vergonha em estar triste.
Não há falha em sentir o que se sente.
Não há motivo necessário para o coração doer.

Há apenas humanidade. E, com ela, a possibilidade de voltar devagar, honesta, inteira, a sentir alegria.

Se te revês na história da Marta

Lembra-te: não és menos forte por estares cansada.
Não és ingrata por te sentires triste.
E não estás sozinha.

Pedir ajuda é um ato de amor-próprio.
E há sempre espaço, mesmo no meio da tristeza, para recomeçar.

Se precisas de ajuda, há quem te ouça

Em Portugal, cerca de 16,4% das mulheres relataram sofrer de depressão crónica, segundo dados oficiais da Eurostat.
O Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental mostra ainda que cerca de 23% da população portuguesa vive com algum tipo de perturbação mental.
E a OCDE, no seu relatório de 2023, confirma: Portugal é um dos países da União Europeia com níveis mais elevados de ansiedade e depressão.

Estes números não são apenas estatísticas, são histórias reais. E mostram que sentir tristeza, exaustão ou vazio não é um sinal de fraqueza, é um sinal de humanidade.

Se sentes que a tristeza está a prolongar-se, não fiques sozinha com isso.
Fala com o teu médico de família ou procura apoio psicológico. Há profissionais e linhas de apoio disponíveis todos os dias, prontos para ouvir-te com respeito e confidencialidade:

SOS Voz Amiga - 213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660 / 930 712 500 (todos os dias, das 15h30 às 00h30)
SNS 24 - 808 24 24 24 (linha gratuita, 24 horas por dia)
Linha de Aconselhamento Psicológico (SNS 24, opção 4) - apoio emocional e psicológico imediato.

Falar salva. E pedir ajuda é um gesto de coragem e de amor-próprio.
Não precisas de um motivo para estares triste, mas há sempre alguém pronto a escutar-te.

Se este texto te tocou, talvez também queiras ler "O Dia em Que o Meu Corpo Deixou de Ser Meu", um relato de como o corpo deixou de ser casa… e da jornada para reencontrar-se

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