Olá, mamacita.

A Rita (nome fictício) escreveu-me numa tarde de Margarita Confessions. Leu uma partilha, reconheceu-se e escreveu. A história, teoricamente encerrada, ainda sussurrava. O impulso era sempre o mesmo: escrever, apagar, prometer que era a última vez. E recomeçar.

A Rita é psicóloga. Sabe o que a teoria diz, mas aqui fala como mulher que passou por isto. O que partilha não é um guia. É o que a ajudou a seguir. E talvez te ajude também.

O que a Rita me contou

A relação tinha terminado há mais de dois anos. A vida seguia: trabalho exigente, afetos novos e tímidos, rotinas reinventadas. À superfície, tudo indicava superação. O ponto cego era o telemóvel.

Em dias aleatórios, surgia uma notificação, uma memória fotográfica, um lugar familiar. O corpo lembrava-se antes da mente. Os dedos abriam o chat, escreviam um “olá” neutro e apagavam. Rascunhos guardados com a promessa silenciosa de nunca serem enviados.

Até que um dia enviou.

À superfície, nada de extraordinário. Mensagens cordiais, memórias amenas, humor leve. Por dentro, porém, algo mexeu. Como se uma ferida antiga tivesse voltado a respirar.

A Rita percebeu que não queria voltar. Queria perceber o que, em si, ainda doía.

Porque é que é tão difícil fechar um capítulo?

Sem rodeios. Só o que ajuda.

- O cérebro pede finais claros. Quando a relação acaba sem explicações suficientes, fica uma tensão à procura de sentido.

- A memória favorece o que foi bom. Com o tempo, amplia o bom e esbate o mau. A saudade ganha palco.

- Gatilhos mantêm ligações vivas. Lugares, músicas, hábitos e redes sociais reativam memórias como se nada tivesse mudado.

- Sem ritual de fecho, mantemos vínculos invisíveis. O corpo continua a seguir rotinas emocionais como se a relação ainda existisse.

Isto não prova amor. Mostra apenas peças tuas ainda por arrumar.

O que a ajudou: clareza interior e higiene de contexto

Claridade interior

Escrever sem enviar. A Rita passou a escrever tudo o que o coração pedia. Cartas que nunca seriam lidas. Palavras para si, não para ele. Ao reler, onde o peito apertava, estava a pista do que importava.

Nomear a intenção. Queria reabrir a relação? Ou fechar o ciclo? Sem esta decisão, qualquer contacto arrasta.

Definir limites. Se enviasse, seria curto, claro e sem expectativas. Se não enviasse, transformaria o impulso num gesto de cuidado por si.

Higiene de contexto

Silenciar e arquivar. Notificações em pausa, conversas arquivadas, fotografias fora de vista. Menos estímulos, mais espaço para reorganizar emoções.
Exemplos práticos: silenciar por 30 dias, mudar o nome do contacto para “Pausa”, retirar a conversa do topo.

Reocupar rotinas com intenção. Aquele café de quarta, a aula adiada, a playlist que é só tua. A vida não se preenche com o passado. Preenche-se com mais vida.

Ritual de fecho visível. Uma carta guardada, uma nota de voz apagada, um gesto simbólico. Algo que marque, de forma palpável, um fim interno.

Devo enviar a mensagem? Checklist rápida

Sim, se:
-
o objetivo é encerrar com respeito, sem segundas intenções
- consegues aceitar qualquer resposta, incluindo nenhuma
- a mensagem cabe em três linhas e não exige retorno

Não, se:
-
esperas que a resposta resolva a tua dor
- estás a testar se ainda há esperança
- cada silêncio dele te desorganiza por dentro

Quando o fecho é teu, a mensagem torna-se desnecessária.

O que mudou

Dias depois da última troca de mensagens, sem recaídas nem recomeços, a Rita sentiu algo novo: tranquilidade. Não havia euforia, nem tristeza. Havia lucidez.

Voltou a ocupar os dias com escolhas que eram dela. Resgatou rituais que tinham sido sequestrados pela relação, como se só pudessem existir a dois.

O impulso de escrever foi diminuindo. Não por orgulho. Por desnecessidade. O peso que carregava não pedia resposta do outro. Pedia espaço dentro dela.

Como saber se estás a voltar a ti

- pensas no assunto sem urgência nem tumulto
- consegues olhar para a relação como ela foi, sem romantizar
- o teu plano de hoje interessa-te mais do que o teu arquivo de ontem
- deixas de procurar sinais e começas a reconhecer escolhas

Isto é o corpo a dizer: o ciclo está a fechar.

A conclusão que cura

A revelação não chegou como grande revelação. Veio num dia qualquer, sem epifanias.

A Rita percebeu: o que lhe faltava não era ele. Eram partes dela que, durante muito tempo, confundiu com a presença dele. A leveza. A curiosidade. A forma como se escolhia.

Não sentia saudades da relação. Sentia saudades de si.

Recuperar essa versão não exige voltar atrás. Exige voltar a si.

Quando a pergunta deixa de ser “e se com ele?” e passa a ser “e agora comigo?”, o passado encontra o seu lugar. E o presente fica, finalmente, habitável.

Se estás aqui, respira. Não precisas de respostas perfeitas. Só de passos honestos.

🩷 A Rita partilhou o processo dela, na esperança de que te ajude com o teu.

FAQ rápido

Enviar para pedir desculpa ajuda?
Ajuda se o objetivo for reparar algo concreto e não obter validação. Se esperas alívio imediato, é provável que frustre.

Bloquear é imaturo?
Bloquear pode ser um limite saudável quando o contacto te desorganiza. Maturidade é reconhecer o que te protege.

Quanto tempo até deixar de doer?
Não há prazo universal. Há sinais: menos urgência, mais rotina, mais vida. Se a dor te paralisa, procura apoio profissional.

Queres partilhar a tua história de forma anónima? Entra em Margarita Confessions e fala comigo. A tua experiência pode ajudar outra mamacita 🩷

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