A Madalena escreveu-me numa noite de insónia, daquelas em que o corpo está deitado, mas a cabeça insiste em ir para todo o lado menos para o sono.
A mensagem chegou ao Instagram da @mamacita_mag, simples, direta, com um peso enorme escondido em meia dúzia de linhas.
“Já passaram anos. Já tive outras relações. Tenho uma vida que gosto, mas continuo a não conseguir esquecer uma pessoa do meu passado. Não é que queira voltar. Mas ele continua aqui. Não sei o que fazer com isto.”
A Madalena quis contar a sua história porque começou a sentir que havia qualquer coisa “de errado” com ela. À volta, ouvia sempre a mesma ideia: o tempo cura tudo, mais cedo ou mais tarde esqueces. O problema é que o tempo passou… e ele não desapareceu totalmente.
Não é o caso de estar obcecada, a seguir todos os movimentos nas redes ou a sonhar secretamente que ele bata à porta. É outra coisa. Mais subtil, mais silenciosa, mais difícil de explicar.
É aquela presença discreta de alguém que já não faz parte da tua vida, mas continua a viver algures dentro da tua cabeça.
Talvez também te reconheças nisto e penses: “porque é que não o esqueço, se a minha vida já é outra?”
A Madalena e o amor que ficou numa gaveta aberta
A Madalena tem 38 anos, vive com o companheiro há quatro, trabalha numa empresa onde se dá bem com quase toda a gente, tem amigas, fins de semana ocupados, férias planeadas. A vida segue.
Antes disso, houve o Miguel. Um namoro que começou na faculdade, que durou anos e que terminou sem explosão, mas com muitos estilhaços.
“Foi aquele amor de crescer juntos. Férias baratas, casas de amigos, trabalhos de grupo que acabavam sempre no mesmo bar. Ele conheceu a pior e a melhor versão de mim. E eu a dele. Houve planos de viver fora, ideias de casamento, aquelas conversas de madrugada em que parece que o mundo está nas nossas mãos.”
A relação, como tantas, não aguentou a transição para a vida adulta. Trabalho, mudanças de cidade, ritmos diferentes, expectativas que começaram a desencontrar-se.
“Não houve traição, não houve escândalo, não houve ninguém terrível. Houve cansaço. Houve aquela frase de ‘já não somos os mesmos’. Quando terminámos, foi triste, mas pareceu-me lógico. Chorei, sofri, segui em frente. Pelo menos era o que eu dizia.”
Anos depois, a vida da Madalena está cheia de outras coisas. Mas, de vez em quando, o Miguel aparece do nada: numa memória, num cheiro, numa música, numa esquina de Lisboa.
“Às vezes é uma coisa pequena. Uma frase que ele dizia, uma piada idiota, um sítio onde fomos. Noutras vezes é mais fundo: dou por mim a pensar ‘como é que teria sido a minha vida se tivesse continuado com ele?’. E depois sinto culpa, porque gosto da pessoa com quem estou hoje.”
Porque é que não o consigo esquecer?
Ao contrário do que os filmes mostram, muitos fins de relação não ficam completamente arrumados. Não é oito ou oitenta, não é “já não sinto nada” ou “ainda estou completamente apaixonada”.
Há uma zona intermédia onde muita gente vive: já não estás apaixonada, já não queres aquela pessoa de volta, mas também não consegues dizer “não significa nada para mim”.
“Eu não quero reatar. Sei bem porque é que aquilo acabou e sei que, hoje, não seria feliz com ele, mas também não consigo colocar o Miguel na mesma prateleira de alguém ‘lá de trás’. Ele não é só ‘um ex’. É como se fosse um capítulo inteiro da minha vida que ainda brilha mais do que os outros.”
Isto é mais comum do que parece. Há pessoas que deixam rasto. Não porque sejam melhores do que todas as outras, mas porque se cruzaram connosco numa fase da vida em que tudo era mais intenso, mais novo, mais por fazer.
Quando pensas “não consigo esquecer o meu ex”, nem sempre é só sobre esse ex. Muitas vezes é sobre quem tu eras nessa época.
Quando a saudade é mais da época do que da pessoa
A Madalena passou anos a tentar encontrar uma resposta “lógica” para esta sensação.
“Pensei que podia ser porque foi o meu primeiro grande amor. Depois achei que talvez fosse porque não tivemos uma conversa final em condições. Noutra fase culpei a minha relação atual, pensei que se calhar faltava qualquer coisa. Mas nada disto encaixa totalmente.”
A verdade é que há vários motivos para não conseguires esquecer alguém do passado:
- Falta de fecho.
- Idealização do que não aconteceu.
- Associação daquele amor a uma fase da vida em que te sentias mais livre, mais leve, mais cheia de possibilidades.
No caso da Madalena, havia um pouco de tudo.
“Quando penso no Miguel, não vejo só a cara dele. Vejo também quem eu era com vinte e poucos anos. Tinha menos medo, menos responsabilidades, mais espaço para sonhos idiotas. Às vezes pergunto-me se é mesmo ele que me faz falta ou se é aquela versão de mim.”
A saudade que parece amor pode, muitas vezes, ser saudade de uma época. Do teu corpo mais leve, de noites em branco sem consequências no dia seguinte, de uma vida em que quase tudo ainda estava por decidir.
Nem sempre é só sobre a pessoa. Às vezes é sobre quem tu foste ao lado dela.
Não é obsessão: é vínculo que não se apaga só com calendário
Uma das grandes dores da Madalena era sentir-se fora do prazo.
“Há uma parte de mim que acha ridículo ainda pensar nele. Já lá vão mais de dez anos. Tenho vergonha de admitir isto em voz alta. Toda a gente à minha volta tem a narrativa perfeita: ‘cada pessoa vem ensinar qualquer coisa’, ‘se acabou é porque não era para ser’, ‘quando aparece o amor certo esqueces o resto’. Eu não esqueci. E gosto muito do homem com quem estou hoje.”
Fica então uma culpa dupla: culpa por ainda lembrar alguém do passado e culpa por achar que, por causa disso, está a ser injusta com o presente.
Não tens de estar obcecada para alguém ainda te acompanhar em silêncio. Pode ser um pensamento que aparece uma vez por mês. Um sonho de vez em quando. Um aperto no peito ao passar num restaurante onde foram tantas vezes.
Não é doença, não é fraqueza, não é falta de amor pela vida que tens. É só uma consequência natural de teres criado um vínculo profundo com alguém numa fase marcante da tua história.
O problema não é lembrar. O problema é quando essa lembrança te impede de viver o que tens hoje.
O que pode ajudar quando não consegues esquecer alguém do passado
Não há maneira de apagar pessoas da memória como quem apaga fotos do telemóvel. Mas há formas de tornar esta presença menos pesada.
Reconhecer que esse amor existiu e foi importante
Fingir que não significou nada só para “não dar força ao passado” raramente funciona. Pelo contrário, costuma intensificar aquilo que tentas negar.
Podes admitir: foi importante, marcou, fez parte de ti.
Aceitar que esquecer não é apagar
Na vida real, “esquecer o ex” não é deixar de lembrar. É deixar de doer da mesma forma.
É conseguires falar dessa pessoa sem o coração acelerar, sem um nó constante na garganta.
Às vezes, o máximo que se consegue é transformar uma ferida aberta numa cicatriz sensível.
Perceber o que é que essa pessoa representa hoje
É o amor? É a juventude? É uma versão de ti que sentes que perdeste? É uma vida que não escolheste?
Quanto mais específica fores, mais percebes onde está realmente a saudade.
Dar um final simbólico, se nunca o tiveste
Pode ser escrever uma carta que nunca vais enviar, onde agradeces o que foi bom, assumes o que foi mau e te despedes daquilo que não volta. Pode ser guardar num sítio específico as fotos ou objetos ligados a essa relação. Não é drama. É ritual.
Olhar para a tua vida atual com honestidade
Há algo que está em falta hoje? Intimidade, aventura, leveza, conversa verdadeira, desejo, parceria.
Às vezes o passado brilha tanto porque o presente está meio deslavado.
Não para culpar ninguém, mas para perceber onde podes cuidar mais da vida que tens agora.
Reescrever a narrativa interna
Em vez de “sou ridícula, ainda penso nele”, tentar:
“É normal que uma pessoa tão importante ainda viva em mim, mas hoje sou eu que escolho quem levo para a frente.”
Em vez de “ninguém me marcou como ele”, tentar:
“Ele marcou uma fase. Outras pessoas vão marcar outras.”
A conversa que a Madalena nunca teve com ele… e acabou por ter consigo
A Madalena passou anos a fantasiar uma conversa final com o Miguel. Ora era um reencontro casual num café, ora uma mensagem inesperada no telemóvel, ora um pedido de desculpa tardio.
“Na minha cabeça, havia sempre uma cena em que nos sentávamos, fazíamos o balanço, ríamos das memórias e, finalmente, fechávamos aquele capítulo. Cá fora, nunca aconteceu. Fomos mantendo um silêncio educado, aqueles likes de cortesia em datas especiais e pouco mais.”
Um dia, depois de mais uma noite em que sonhou com ele e acordou irritada consigo própria, percebeu que talvez estivesse à procura da validação errada.
“Percebi que estava à espera que ele viesse fechar uma porta que, na verdade, só eu podia fechar. E escrevi a tal carta. Não foi para o ecrã, foi para um caderno. Escrevi tudo o que teria dito se estivéssemos frente a frente. Não foi bonito nem digno de filme. Foi honesto.”
Nessa carta, a Madalena agradeceu o que viveram, reconheceu o que doeu, assumiu a parte dela e, sobretudo, escreveu a frase que mais custava: “Hoje já não te quero na minha vida, mas aceito que vais sempre existir na minha história.”
Depois de escrever, chorou imenso. Guardou a carta numa gaveta. Não para voltar lá sempre, mas para saber que o capítulo tinha, pelo menos, um ponto final escrito em algum lado.
“Ele continua a aparecer de vez em quando na minha cabeça. Só que agora já não sinto que estou a trair a minha vida atual. É mais como ver um filme antigo que adorei, mas já não quero repetir todos os dias.”
Se também não consegues esquecer alguém do passado, isto é para ti
Se há um nome que não dizes em voz alta, mas que ainda mexe contigo.
Se sentes vergonha de admitir que ainda pensas em alguém “de antes”.
Se estás numa relação e, mesmo assim, essa pessoa aparece nos teus pensamentos de vez em quando.
Não és ingrata. Não és fraca. Não estás atrasada em nenhuma linha de montagem emocional.
Criar laços profundos com alguém deixa sempre marcas. Alguns amores não foram feitos para durar a vida toda, mas foram fortes o suficiente para nunca ficarem completamente neutros.
O que pode acalmar o coração, aos poucos, é perceber que:
Lembrar não significa querer voltar.
Ter saudades não significa que fizeste más escolhas.
Podes honrar o que essa pessoa representou e, ao mesmo tempo, escolher viver o que tens hoje com mais presença.
O passado não precisa de desaparecer para o presente poder crescer.
Talvez a verdadeira “cura” não seja esquecer alguém do passado, mas ocupar a tua vida de tal forma que essa pessoa deixe de ser centro e passe a ser apenas uma parte da tua história.
Se quiseres, este espaço também é teu
Se não consegues esquecer o teu ex ou alguém do teu passado e sentes que ninguém leva isso a sério, não tens de atravessar isto sozinha.
Podes escrever-me para as Margarita Confessions e contar a tua história: ela pode continuar anónima ou vir com nome e rosto, como tu escolheres. A única coisa garantida é que será recebida com respeito, cuidado e empatia.
As Margarita Confessions existem para que este tipo de dor não precise de viver escondida debaixo de frases feitas como “isso já passou” ou “estás a agarrar-te ao passado”.
Porque, no fim, aquilo que mais cura não é alguém dizer-te para esquecer.
É saberes que, mesmo enquanto ainda não esqueceste totalmente, há um lugar onde podes falar disso sem ninguém te chamar ridícula. 🩷
