NOTA: ESTE É UM ESPAÇO ONDE O JULGAMENTO FICA À PORTA. A INTENÇÃO NÃO É JUSTIFICAR NEM CONDENAR, MAS CRIAR UM LUGAR DE EMPATIA E REFLEXÃO PARA MULHERES QUE VIVEM DILEMAS QUE MUITAS VEZES SÃO TÃO SOLITÁRIOS QUANTO COMPLEXOS.
A “Rita” (nome fictício) escreveu-me num daqueles fins de tarde em que o dia já pesa mais do que devia. A mensagem chegou ao Instagram do @mamacita_mag, curta, mas com um nó inteiro lá dentro.
“Não sei se estou a exagerar, mas sinto que estou de luto por uma amizade. Já ninguém me leva isto a sério. Dizem que é só ‘fazer novas amigas’. Mas eu sinto que perdi uma parte da minha vida.”
A Rita quis contar a sua história. Disse que, ao ler as Margarita Confessions, percebeu que era tempo de falar sobre esta dor que tantas mulheres vivem em silêncio. Quis escrever para que outras não se sentissem ridículas nem dramáticas por chorarem uma amiga que ainda está viva, mas já não está na vida delas.
Foi assim que começou esta conversa sobre o luto das amizades. Aquele de que quase ninguém fala, mas que existe, fundo, no peito de muita gente.
A amiga que era casa
A Rita tem 35 anos, é mãe de um filho de três, vive numa relação estável e trabalha na área da comunicação. Durante mais de uma década, teve uma amiga que era mais do que amiga. Era casa.
“Éramos aquelas amigas chatas que toda a gente inveja um bocadinho. Ríamos de coisas que ninguém percebia, mandávamos áudios de dez minutos, sabíamos a vida uma da outra de trás para a frente. Ela foi comigo a consultas, esteve lá nos momentos difíceis, nos bons, nos ridículos. Era a pessoa a quem eu mandava mensagem primeiro sempre que acontecia alguma coisa.”
Até que, devagar, quase sem aviso, essa amizade começou a desaparecer.
“Não houve uma grande discussão, ninguém gritou, não houve drama de filme. Houve, sim, uma coleção de silêncios. Demoras a responder. Convites que deixaram de aparecer. Mudanças de prioridade. Um dia percebi que já tinha passado um mês sem falar com ela. Depois dois. De repente, parecia que eu estava a tentar manter viva uma coisa que já só existia na minha cabeça.”
Quando a amizade acaba sem certidão de óbito
Raramente existe um momento formal em que alguém declara: esta amizade acabou. Na maioria das vezes, o fim de uma amizade é um processo. A vida muda, os horários desencontram-se, as fases deixam de bater certo, as expectativas deixam de se alinhar. Em alguns casos há conflitos, noutros há apenas um afastamento gradual.
O problema é que, ao contrário do que acontece com separações amorosas, não existe um guião social para o fim das amizades.
Quase ninguém traz flores. Quase ninguém pergunta “como estás a lidar com isso”. Quase ninguém legitima o luto. Muitas mulheres ouvem frases como “isso passa”, “faz amigas novas”, “estás a dramatizar” ou “cada uma seguiu a sua vida, é normal”.
A Rita foi ouvindo tudo isto, uma a uma.
“Comecei a achar que o problema era eu. Que estava a ser infantil por chorar uma amiga. Mas a verdade é que eu chorava mesmo. Lembrava-me das nossas coisas, via fotos antigas e sentia a mesma dor de quando se acaba uma relação. Só que, neste caso, parecia que não tinha o direito de ficar triste.”
Os profissionais de saúde mental reconhecem cada vez mais que o fim de uma amizade pode desencadear um luto real, com impacto emocional profundo. A ligação a uma amiga íntima é muitas vezes tão forte quanto a um parceiro romântico. Em alguns casos, é até mais segura, mais presente, mais constante ao longo da vida.
Perder essa pessoa é, frequentemente, perder também uma parte da identidade, da história e da rede de apoio. Não é “drama”, é vínculo humano a desfazer-se.
A dor que ninguém valida
Perguntei à Rita qual era a parte que mais doía. Ela não hesitou.
“O que mais me dói não é sequer já não falarmos. É a sensação de que tudo aquilo foi fácil de largar para ela. Que eu era mais substituível do que pensava. E, ao mesmo tempo, sinto-me ingrata por pensar isto, porque sei que ela também tem a vida dela, os problemas dela, as fases dela.”
Este tipo de pensamentos é muito comum quando uma amizade termina. Aparecem dúvidas sobre o próprio valor, perguntas insistentes sobre o que se fez de errado, comparações com as novas pessoas que ocupam aquele lugar. É fácil transformar o fim de uma amizade numa prova de que “não somos suficientes”. Ao mesmo tempo, há um outro lado: a culpa.
“Há coisas que sei que podia ter feito melhor. Houve mensagens que não respondi na hora, dias em que me fechei, momentos em que também falhei. Às vezes penso que, se tivesse sido diferente, ela ainda estava aqui. É um luto misturado com culpa, arrependimento e um bocadinho de vergonha.”
Ao longo da vida, as amizades vão mudando. Não porque alguém seja “má pessoa”, mas porque circunstâncias, tempos e necessidades também mudam. Grávidas e não grávidas, mães e não mães, ritmos de trabalho, mudanças de cidade, novas relações, problemas de saúde mental, cansaço acumulado. Tudo isto mexe com a disponibilidade e com a forma como nos relacionamos.
Nada disto invalida a dor. Mas ajuda a perceber que o fim de uma amizade não é uma avaliação final da nossa qualidade como pessoa. É um capítulo da história, não o resumo da vida toda.
Quando a amizade termina mas a pessoa continua viva
Uma das razões pelas quais o luto das amizades pode ser tão difícil é porque a pessoa continua lá, algures. Nas redes sociais, nas histórias de amigos em comum, em encontros ocasionais no supermercado ou numa festa.
“É estranho. Não posso dizer que a perdi para sempre, porque ela está aí, a viver a vida dela. Mas ao mesmo tempo perdi. Perdi a forma como ela existia na minha vida. Perdi a rotina das conversas, a confiança de saber que podia ligar a qualquer hora. É uma ausência que vem sempre com um lembrete visual de que ela continua a existir, só não para mim.”
Este tipo de luto é muitas vezes chamado de luto não reconhecido. Não há rituais, não há datas, não há estatuto social de dor. Fica tudo guardado num canto discreto, como se não merecesse o mesmo cuidado que outras perdas... mas merece.
O que pode ajudar a curar este luto
O que pode ajudar, segundo quem trabalha com estas questões, passa por algumas ideias fundamentais.
Reconhecer a perda
Admitir, primeiro contigo, que aquilo que tinhas era importante e que acabou ou mudou de forma irreversível.
Permitir o luto
Tristeza, raiva, nostalgia, alívio, tudo pode aparecer. Nenhuma emoção é “errada”. O que importa é não transformar essas emoções em identidade. Estão ali por um motivo, não são a totalidade de quem és.
Dar nome à história
Às vezes ajuda escrever uma carta que nunca vais enviar, falar disso em terapia, contar a alguém de confiança. Pôr por palavras o que foi bom, o que foi mau, o que ficou por dizer.
Cuidar do presente
Reforçar outras relações, investir em novas ligações, recuperar partes tuas que ficaram ligadas a essa amizade. Não como substituição rápida, mas como forma de lembrar que a tua vida não se esgota numa pessoa.
Decidir se há espaço para um contacto honesto, mais tarde, quando (e se) fizer sentido.
Em algumas histórias, há reencontros possíveis. Noutras, a melhor forma de honrar o que foi é aceitar que já não é.
A conversa que a Rita pensou mil vezes e só teve uma
Durante meses, a Rita ensaiou na cabeça uma conversa com a amiga. Escreveu mensagens que nunca enviou. Apagou textos inteiros. Viu os stories dela e desligou o som para não se magoar mais.
“Um dia, estava tão cansada desta novela interna que decidi escrever. Não para acusar, mas para ser honesta. Disse-lhe que sentia saudades, que percebia que estávamos em fases diferentes, mas que me custava este afastamento sem nome, que não queria voltar ao que era à força, mas precisava de fechar a porta com respeito.”
A resposta não foi um conto de fadas.
“Ela respondeu com carinho, mas também com distância. Disse que a vida dela estava noutra fase, que não tinha sido nada contra mim, que às vezes as coisas simplesmente mudam. Doeu, mas, ao mesmo tempo, senti uma paz estranha. Era como se alguém tivesse finalmente confirmado a minha sensação. A amizade, pelo menos daquela forma, tinha mesmo acabado.”
A Rita não voltou a falar com ela todos os dias, não recuperou a velha rotina, mas deixou de viver agarrada à dúvida.
“Continuo a ter saudades do que fomos, só que agora já não fico presa ao ‘e se’. Consigo olhar para trás com gratidão e para a frente com mais leveza. O luto não desapareceu, mas deixou de ser uma ferida aberta para passar a ser uma cicatriz que faz parte de mim.”
Se as tuas amizades foram morrendo… Isto é para ti
Se sentes que as tuas amizades se perderam pelo caminho, se há uma amiga específica que ainda dói lembrar, se és a única do grupo que ainda tenta marcar cafés e recebe sempre respostas vagas, isto não é “só coisa da tua cabeça”.
É normal que doa. É legítimo que doa e é importante que não desvalorizes essa dor só porque “não é um namoro” ou “ninguém morreu”.
As amizades sustentam a nossa saúde emocional, protegem contra a solidão, ajudam a construir quem somos. Quando uma ligação destas termina, a vida sente-se mais vazia durante algum tempo. Não é sinal de fraqueza, é prova de que tu levas as relações a sério.
Podes, ao mesmo tempo, guardar com carinho o que foi bom, aprender com o que doeu e abrir espaço para novas pessoas. Nada apaga o lugar que aquela amiga teve, mas isso não significa que a tua história emocional tenha ficado ali congelada para sempre.
O que pode acalmar o coração, aos poucos, é perceber que:
Não és menos interessante, menos boa amiga, menos especial porque alguém se afastou.
Nem todas as amizades foram feitas para durar a vida toda. Algumas são capítulos, não o livro inteiro.
Tens direito a sentir falta, chorar, falar sobre isso, procurar ajuda se for preciso.
Ainda é possível construir relações profundas mais tarde na vida, em novas fases, com novas pessoas.
Se te revês na história da Rita, talvez seja tempo de dares, a ti própria, o mesmo cuidado que darias a uma amiga no teu lugar. Falar com alguém, escrever, pedir colo, permitir-te sentir o luto sem te chamares dramática.
Se quiseres, este espaço também é teu
Se estás a fazer o luto de uma amizade e sentes que ninguém leva isso a sério, não tens de atravessar isto sozinha.
Podes sempre escrever-me para as Margarita Confessions. A tua história pode continuar anónima ou vir com nome e rosto, como tu escolheres. A única coisa garantida é que será recebida com respeito, cuidado e empatia.
As Margarita Confessions existem para que este tipo de dor não precise de viver escondida debaixo de frases feitas. Porque, no fim, aquilo que mais cura não é ouvir que “isso passa”. É saber que, enquanto não passa, não estás sozinha. 🩷
