NOTA: ESTE É UM ESPAÇO ONDE O JULGAMENTO FICA À PORTA. A INTENÇÃO NÃO É JUSTIFICAR NEM CONDENAR, MAS CRIAR UM LUGAR DE EMPATIA E REFLEXÃO PARA MULHERES QUE VIVEM DILEMAS QUE MUITAS VEZES SÃO TÃO SOLITÁRIOS QUANTO COMPLEXOS.
A “Carolina” (nome fictício) escreveu-me por mensagem privada no Instagram (@mamacita_mag). O texto parecia simples, mas vinha carregado de um peso enorme:
“Na minha cabeça já me divorciei mil vezes. Na vida real, continuo aqui. O que é que isto diz sobre mim?”
Disse-me que, depois de ler tantas confissões, sentiu vontade de falar sobre esta verdade que tantas mulheres vivem em silêncio. Quis contar a sua história para que outras soubessem que não estão sozinhas no casamento que existe no papel, mas às vezes desmorona no pensamento.
Foi assim que começou esta conversa sobre o divórcio que não se assina no tribunal, mas acontece, todos os dias, dentro da cabeça.
A vida em modo “Se Eu Fosse Embora…”
A Carolina tem 39 anos, é casada há 14, mãe de duas crianças em idade escolar, trabalha numa área estável, tem casa, rotina, família, férias em agosto. Daqueles retratos que, no Instagram, parecem a tal “vida feita”.
Por dentro, a história é outra.
“Há dias em que olho para ele e só penso: e se eu saísse? E se pegasse nos miúdos e começasse de novo? Depois, faço o jantar, ajudo nos TPC, arrumo mochilas e a vida continua. Mas na minha cabeça, todos os dias, há um pequeno divórcio imaginário a acontecer.”
Não há gritos constantes, não há agressões, não há uma grande traição. Há algo, para muitos, mais difícil de explicar: um acumular de desencontros, silêncio, ressentimentos pequenos que foram ficando grandes, conversas adiadas, afetos que se foram tornando mecânicos.
“Não posso dizer que sou infeliz todos os dias. Há carinho, há momentos bons, há parceria. Mas às vezes sinto que vivo em piloto automático. Que sou mais colega de casa do que companheira. E isso faz-me imaginar outra vida, uma vida em que eu escolho sem ter de negociar tudo, em que não tenho de ser sempre a adulta responsável por todos.”
Fantasiar o divórcio é normal?
Fantasias de separação são mais comuns do que se fala à mesa do jantar. Em relações longas, muitos psicólogos descrevem exatamente isto: momentos em que a pessoa pensa “e se eu estivesse sozinha?”, “e se eu não tivesse casado?”, “e se eu me separasse?”.
Por si só, imaginar o divórcio não faz de ninguém má companheira, nem significa automaticamente que a relação acabou. Muitas vezes, é um sinal de cansaço, frustração, sensação de “casamento infeliz mas não tenho coragem de sair”, necessidade de mudança.
Não é o pensamento que define tudo, é o que fazemos com ele.
A Carolina descreve isto de forma crua:
“Há uma parte de mim que quer ir embora. E outra parte que quer desesperadamente que isto resulte. E eu vivo no meio destas duas, sem saber qual escolher. Sinto-me culpada por pensar em sair e, ao mesmo tempo, revoltada por achar que não consigo.”
Esta ambivalência é real. Querer e não querer ao mesmo tempo. Ficar e imaginar ir. Amar e estar cansada.
Muitas mulheres contam exatamente isto: “quero divorciar-me mas não consigo”. No meio, fica um divórcio emocional que se vai instalando, mesmo que ninguém tenha dito a palavra “fim” em voz alta.
As razões invisíveis que te mantêm
Perguntei à Carolina porque continua. A resposta não veio numa frase bonita, veio em camadas.
“Fico pelos miúdos, claro. Não quero ser a mãe que destruiu a família. Fico porque tenho medo de não aguentar sozinha. Penso nas contas, na casa, na logística. Fico porque, apesar de tudo, há amor, mesmo que às vezes fique escondido debaixo de muita mágoa. E fico porque não tenho a certeza se o problema é o casamento… ou se sou eu.”
Muitas mulheres que vivem este dilema descrevem motivos parecidos:
- medo do impacto nos filhos
- questões financeiras e medo de não conseguir sozinha
- receio da solidão e do julgamento
- vergonha perante a família e a sociedade
- dúvidas profundas sobre si próprias
Importa dizer isto com clareza: nenhuma destas razões é absurda. São reais, complexas e legítimas.
Tomar a decisão de sair ou ficar não é um teste simples de coragem. É um processo que mexe com identidade, segurança emocional, estabilidade económica e com o bem-estar das crianças.
O que especialistas em psicologia de casal observam é que não é apenas a decisão final que importa. É a forma como se vive enquanto ela não chega.
Ficar “suspensa” durante anos, sem falar do que dói, pode ser tão desgastante quanto uma separação mal gerida.
Quando o divórcio emocional já aconteceu
Há casamentos que acabam muito antes de alguém assinar papéis. Muitas pessoas chamam a isto “divórcio emocional”.
É quando o vínculo afetivo e íntimo se rompe por dentro, mesmo que a relação continue formalmente, com morada, anéis, férias e fotografias em família.
A Carolina reconhece traços deste divórcio silencioso:
“Tenho a sensação de que cada um vive no seu mundo. Ele com o trabalho dele, eu com o meu, pelos miúdos corremos os dois. Mas conversar verdadeiramente? Sobre o que sentimos, sobre o que queremos, sobre o que nos dói? Quase nunca. Às vezes penso que, se um dia nos separássemos, a rotina era a mesma, só mudava o código postal.”
Os sinais mais comuns deste afastamento emocional incluem:
- deixar de partilhar o que se sente
- evitar temas difíceis por medo de conflito
- perder curiosidade pelo outro
- sentir que tudo o que se fala é sobre logística, filhos, contas
Em muitos casos, não é falta de amor. É falta de cuidado continuado na relação, esmagada pelo ritmo da vida, pela exaustão, por tudo o que ficou para depois.
Não é culpa de uma pessoa só. Relações longas precisam de manutenção. Quando isso não acontece, o afastamento instala-se devagar, quase sem dar por isso.
E quando há violência ou abuso?
É importante distinguir relações emocionalmente desgastadas de relações onde existe violência psicológica, física, sexual ou económica.
Se há medo constante da reação do outro, humilhação, controlo, ameaças, manipulação, isolamento ou agressões, a conversa é outra. Nestes casos, a prioridade é a segurança física e emocional.
Aqui, o foco não é “como melhorar o casamento”, mas como proteger a pessoa e, se houver, as crianças. Procurar ajuda especializada, serviços de apoio à vítima, linha de apoio, profissionais de saúde e estruturas legais é fundamental.
Numa relação abusiva, o problema não é “falta de conversa” ou “perder a paixão”. É uma questão de proteção e de direitos básicos. Ficar “para ver se melhora” pode ser perigoso.
No caso da Carolina, não há violência. Há um casamento cansado, onde o afeto existe, mas já não chega para abafar a sensação de que algo falta.
O que podes fazer com este divórcio imaginário
A pergunta da Carolina não é “devo divorciar-me?”.
A pergunta dela é outra: “como é que eu vivo com isto que sinto?”.
Não há respostas simples, mas há caminhos que podem ajudar.
Ela começou pelo primeiro: falar.
“Esta foi a primeira vez que escrevi isto a alguém. Só o facto de ver as palavras fora da minha cabeça já me fez chorar. Senti vergonha, mas também alívio. Percebi que, enquanto não puser isto cá fora, vou continuar a viver num casamento que ele não conhece e numa vida que nem eu entendo.”
Muitas mulheres passam anos a tentar resolver tudo no pensamento. Fazem contas a cenários, imaginam discussões, guarda partilhada, casas novas.
Depois, voltam ao jantar como se nada fosse.
O problema é que este processo, quando fica só no mundo mental, costuma vir acompanhado de muita culpa e pouca mudança prática.
Em situações de grande ambivalência, alguns passos podem ajudar, sempre adaptados a cada caso:
- Esclarecer o que está realmente a acontecer. Perceber se o que dói é a relação em si, a forma como a vida está organizada, a exaustão geral, questões pessoais não resolvidas, ou uma mistura de tudo.
- Pedir ajuda psicológica individual. Pode ser uma forma segura de pôr as peças em cima da mesa sem medo de julgamento, compreender padrões, distinguir entre desejos momentâneos e necessidades profundas.
- Avançar, quando possível, para uma conversa honesta com o parceiro. Não precisa de começar com “quero divorciar-me”, pode começar com “não estou bem assim”, “sinto-me distante”, “preciso que olhemos para isto juntos”.
- Considerar terapia de casal, se ambos estiverem disponíveis. Pode ajudar a reconstruir diálogo, redefinir acordos, trabalhar mágoas antigas e perceber se há vontade genuína dos dois lados em cuidar da relação.
- Olhar também para a tua própria vida, para lá do casamento. Rede de apoio, autonomia financeira, saúde mental, amizades, interesses pessoais. Qualquer decisão, de ficar ou sair, fica mais clara quando não estás completamente esgotada ou isolada.
Carolina e o dia em que deixou de ter medo das palavras
Depois da nossa conversa, a Carolina tomou uma decisão.
Ainda não foi a de se separar. Foi a de deixar de viver este dilema sozinha.
Contou-me:
“Marquei consulta com uma psicóloga. Disse ao meu marido que estava a pensar seriamente se este casamento me faz bem. Ele levou um murro no estômago, claro. Mas pela primeira vez, em muitos anos, tivemos uma conversa verdadeira. Doeu muito, mas foi real. Ele também disse coisas que eu não queria ouvir. Percebi que eu não sou a única a sentir que estamos a perder-nos.”
Não houve milagre instantâneo. Não há texto que possa prometer isso.
O que houve foi um início.
“Continuo sem saber o que vai ser da nossa relação daqui a um ano. Mas sinto que, finalmente, estou a participar na minha própria vida, em vez de viver só nos cenários que invento antes de adormecer.”
O coração abranda quando deixamos de fugir do que sentimos e começamos a dar-lhe nome.
Mesmo que o nome ainda não seja “fim” nem “recomeço”, mas apenas “verdade”.
Se este texto te está a doer, não é por acaso
Se, enquanto lias isto, pensaste “sou eu”, não estás sozinha.
Há muitas mulheres a viver casamentos que funcionam por fora e se desfazem por dentro. Relações em que há carinho, mas também silêncio. Ligações que já foram casa e agora são só sítio onde se dorme.
Sentir vontade de sair não te faz má mãe, má mulher, má pessoa. Significa que algo em ti está a pedir atenção. Ignorar esse pedido durante anos tem um custo emocional grande.
Às vezes, a decisão final é reconstruir o casamento.
Outras vezes, é separar-se com respeito e cuidado.
Outras ainda, é ajustar acordos dentro da relação, sem drama, mas com verdade.
Em todos os casos, o ponto de partida é o mesmo: parar de te calar contigo própria.
Se te revês na história da Carolina, talvez seja o momento de começares, devagarinho, a falar com alguém de confiança. Uma amiga, um terapeuta, o teu companheiro.
O importante é não carregares sozinha um casamento inteiro nos ombros e, ao mesmo tempo, mais um divórcio imaginário na cabeça.
Quando transformas o que só vivia em silêncio em palavras, não resolves tudo de um dia para o outro, mas dás a ti própria aquilo que mereces há muito tempo: honestidade, cuidado e a possibilidade real de escolha.
Se quiseres partilhar a tua história de forma anónima, podes fazê-lo nas Margarita Confessions. Não tens de carregar isto sozinha 🩷
